Portugal, urgente: Vitória e derrota da Geringonça

Texto de Tuíla Lins e Lucas Pacheco Campos, de Lisboa No último domingo, 6 de outubro de 2019, ocorreram as eleições para a Assembleia da República de Portugal. Tratou-se do mais alto teste pelo qual passou a conformação governativa das esquerdas portuguesas, denominada de Geringonça e formada em 2015 logo após dissolver o governo da coligação entre o Partido Social Democrata (PSD) e o Partido do Centro Democrático Social (CDS). Para se analisar os resultados de domingo, é necessário retornar um pouco no tempo para contextualizar o que foi e o que significou a Geringonça. Da Troika à Experiência das...

SOLIDÃO: Reflexões de uma “cuidadora de idoso”

SOLIDÃO: Reflexões de uma “cuidadora de idoso”

Vi uma frase outro dia – “Não é sinal de saúde estar bem adaptada a uma sociedade doente”.Não me lembro de quem, nem se exatamente isso, mas foi assim que entendi, e me fez refletir sobre minha condição atual. Não é apenas uma reflexão sobre um idoso doente. Mas,em especial, de uma cuidadora de um idoso de esquerda, doente. Aluísio Marques, militante petista e meu companheiro, vem sofrendo sucessivos AVC. Em junho de 2018,teve um AVC isquêmico que deixou, como sequela, uma leve afasia ocasionada por uma lesão no cérebro, que afeta a capacidade de expressão e de entendimento, a...

É tudo brincadeira

É tudo brincadeira

Ridiculum ria de tudo, ria de todos, menos dele próprio. No fundo, era muito sério para ver graça além da desgraça alheia. Achava que era meio rei, meio bobo da corte. Talvez por isto não houvesse quem risse dele. No fim das contas, não entendia que fora um bobo sem corte que havia se tornado o monarca que destruiu o reino. Parece difícil de acreditar, mas “é verdade esse bilhete”. Tudo depende da chancela de quem conta. Não é o caso deste personagem narrador. Quem atestou a veracidade do bilhete foi uma autoridade inconteste da atualidade: o valente Guru das...

Guerra comercial e recessão mundial: Trump repete Hoover?

Trump festeja a decisão da OMC que dá aos EUA o direito de retaliar os europeus, aumentando os impostos sobre os produtos oriundos da União Européia. A guerra comercial com a China já está posta. Agora se amplia para a Europa. Trump tenta proteger o seu mercado, em véspera das eleições, procurando os votos para um novo mandato. Mas relembra alguns fatos passados, nada agradáveis, que se podem repetir. Hoover, os anos 1930 e a Lei Smoot-Hawley No dia 24 de outubro de 1929, a Bolsa de Valores de Nova York foi abaixo e principiou a recessão dos Estados Unidos. Debatendo-se...

A rebeldia retórica sem noção

A rebeldia retórica sem noção

Guru é uma verdadeira vestal verbal. Sua pureza de espírito e seu vasto e rigoroso conhecimento científico impressionam até mesmo as mais exigentes personalidades acadêmicas. Sempre disposto ao diálogo, não transige com a transigência. Caralho, porra! E a polêmica oral se estabelece. Filho de uma puta! Substantivo, adjetivo, interjeição ou apenas uma gentileza espontânea: uma espécie de vírgula idiossincrática? A disputa é acalorada. Tu é burro pra caralho! Muitos neófitos interpretam o grunhido como uma espécie de assinatura pessoal. Ora, porra! Não chega a ser propriamente uma palavra. Vai se foder! De fato, não possui intenção semântica. Combustível fóssil é o cu da sua mãe! Não pode ser traduzido como uma ofensa. Porra! É quase um...

Fragmentos da eternidade

Fragmentos da eternidade

Toda Poderosa é uma personagem especial: Ela é a Criadora-de-todas-as-coisas. O que certamente não é pouco. Qualquer pequeno detalhe poderia ser descrito como “um dia em Sua vida”, mas isto não faria muito sentido. Fragmento da eternidade parece se adequar mais a esta Grande figura. Diferente de quem lê ou escreve, Ela é antes de tudo um Ser bem-humorado, que lamenta muito o uso limitadamente moralista do tal livre-arbítrio. Se era para ficar perturbando a vida alheia, Eu preferia não ter criado esse bando de frustradas. Se era para aporrinhar as outras, Eu mesmo ficaria apontando as falhas dessas criaturas tão soberbas. E...

Crise e oportunidade

A revista Exame, em sua versão digital de 4 de setembro, reportando a possível flexibilização do teto de gastos, diz que o ministro Guedes e o deputado Rodrigo Maia são contra. Nas palavras de Maia, que Guedes acompanha, com declarações semelhantes em outros espaços, “temos 14% do PIB em previdência, 13% do PIB em funcionalismo e 6% do PIB em juros. Ou seja, 33% do PIB está comprometido, nós temos que reduzir essas despesas. É por isso que tem que manter o teto, impossível mexer, vamos resolver esse problema, o governo encaminha reforma administrativa para ter um estado que custe...

O que falta, mesmo, é segurança

O que falta, mesmo, é segurança

Maicon morava na periferia da região metropolitana. Seus pais eram de União dos Palmares, interior de Alagoas, e começaram a namorar quando trabalhavam em um condomínio da zona sul carioca. O filho tinha dezessete anos e estava acabando o Ensino Médio. Trabalhava de dia vendendo equipamentos eletrônicos no centro da cidade e estudava à noite em um colégio perto de casa. Tinha vergonha da origem de seus pais. Ele era antenado com as novidades do mercado de telecomunicação. Tinha orgulho de trabalhar com tecnologia, receber comissão e, no fim da semana, voltar para casa com mais dinheiro do que seus pais ganhavam em um mês de trabalho....

Que conversa é essa?

Que conversa é essa?

José Carlos nasceu no interior e cresceu trabalhando com o pai na roça. Aos treze anos foi viver na cidade grande. Foi direto para a capital. Seu tio já morava lá a uns cinco anos. Foi na frente pra ganhar a vida. Tinha muito conflito naquelas bandas onde moravam. Seu pai morreu numa emboscada armada pelos capangas de um fazendeiro poderoso da região. Coisa de gente grande: uma briga por um pedaço de terra junto à casa em que o avô dele nasceu. Seu pai estava ligado ao sindicato rural e o sinhozinho de lá disse pra ele largar de mão esse negócio de política. Seu irmão estava com ele voltando...

O outro não pode ser diferente de mim

O outro não pode ser diferente de mim

Tânia precisa ser aceita. Não pode ser esquecida. Necessita da confirmação de que está no caminho certo, de que é como os outros. Neste momento ela se sente anestesiada. Seu torpor vem de uma sensação que parece ultrapassar a experiência imediata. Sua angústia diminuiu. O que era dor se transformou em realização. Tânia não está abandonada. Nesta busca, ela não está sozinha. Como ela, são centenas em pé, com a cabeça erguida e as mãos voltadas para o céu. O contato é direto, mas não conjunto. Cada um se realiza isoladamente. Todos se sentem tocados porque são especiais, mesmo que...