Estado é para quem precisa
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No fantástico mundo dos umbigos autocentrados, todo indivíduo só se preocupa com suas carências, com a própria escassez. Cada um se volta para o que lhe falta. Todos aceitam como necessidade universal legitimar como mérito pessoal o que poucos têm. Mas na verdade, se é direito, é porque é para todos. Se apenas alguns têm, não é direito, mas privilégio. Quando todos reconhecem isso e reivindicam como bem comum tudo aquilo que compartilham, o que se produz deixa de ser de poucos e passa a ser de todos.

Minotauro precisa do poder público. Ele é contra o Estado, mas fala que o governo tem que ajudarEstado só atrapalhaÉ incompetenteEficiente é a iniciativa privadaPara ser bem feitotem que ser feito por empresários. Ninguém faz por ele. Muitos dizem: “bem feito”. Ele não ouve, mas percebe o desprezo. Precisamos de gente que faz. Minotauro é um entusiasta do empreendedorismo. É um camarada esforçado. Não sabe porque, mas reconhece que lhe falta um monte de coisas. Ele necessita de ajuda para educação, saúde, alimentação, habitação, saneamento, transporte, trabalho, previdência, lazer. Não é culpa sua. O governo é que é ladrão e não ajuda quem precisa. Para ele, o Estado deveria prover tudo isso para pessoas como ele. Aos demais, não. Estado é para quem precisaDireito é pessoalÉ para quem carece… e por isso merece. Estado é “direito” segundo sua régua.

Ícaro acha que gente como Minotauro não precisa do EstadoSe precisasseteria corrido atrás e conseguido vencer, como ele. Muito preocupado com o bem estar alheio e dono de um empório, ele defende que jamais se dê o peixeMinotauro que encontre um rio e aprenda a pescar. Generoso, diz que é para o seu bemEle é responsável pelo que fazO hábito do cachimbo é que deixa a boca torta. Ícaro advoga segurança para todos. Ele acredita que é só isso o que precisa. O resto ele tem, porque merece, porque sua família conquistou. Ele precisa de proteção. Ícaro demanda forças de segurança estatais: polícia tirando o couro da vagabundagem! Polícia para quem precisa de polícia. E ele necessita. Ele não tem recurso para bancar um serviço privado de segurança. Ao menos não enquanto a milícia não convencê-lo de pagar pelo “benefício”. Ele não tem tudomas pôde comprar tudo o que tem. Para ele, o Estado deve ser mínimodeve se desincumbir de tudo, da garantia de todos os direitos sociais e se dedicar somente à preservação do patrimônio privado. Ícaro é humano… e pleno de direitos. Dócil, comportado, subserviente, disciplinado, ele tem direito por merecimento. Insiste que direitos humanos são para humanos direitos… como ele. Estado é “direito” segundo sua régua.

Longe de todos, Cronos defende que ninguém precisa do Estado. Cronos tem tudo. Só demanda que os outros defendam por ele o direito de ter os privilégios que eles não têm. Afinal, se todos tivessem, não seriam privilégios, seriam direitos. Ele só precisa da garantia de que tudo o que ele tem continuará só seude mais ninguém; de que o que ele tem seja valorizadoremuneradose multiplique e cresça infinitamente para que ele tenha cada vez mais. Ele precisa ganhar o máximo que puder tirar dos outros. Estado é para istoServe para garantir o superávit primário; para remunerar os titãs da economia. Estado é para quem demanda e tem o que oferecer. Cronos oferece o sonho de ser como ele. Despreza a subserviência de Ícaro. Incentiva a desumanização de Minotauro. Cronos precisa que os outros defendam seu direito de receber do Estado o que eles trabalharam. Ele necessita do altruísmo voluntarista dos que advogam como “direito pessoal” o privilégio de ter o que eles próprios não têm. Estado é “direito” segundo sua régua.

É curioso que todos reconhecem o sistema de medida, que não é nem o de Minotauro nem o de Ícaro. Sem perceber, eles reproduzem como universal a régua de Cronos. Como o que tem valor é somente a suposta realização individual, todos acreditam que um dia serão como ele e terão só para si tudo aquilo que poderia ser de todos, mas que continua sendo apenas de alguns. Não deixa de haver beleza na abnegação de tantos em nome de tão poucos: um tipo de solidariedade individualista; uma espécie de generosidade e altruísmo com o egoísmo do outro. Seria o paradoxo da vergonha alheia se não fosse a nossa própria humilhação.

Se há Estado, é justamente porque existe o monopólio do acesso à riqueza produzida. Se deve ser para todos, é necessário que ele seja conquistado e redefinido; para que todos tenham direitos, sem restrição ou subserviência. No limite, no futuro construído com comunhão e abundância de recursos pelos que hoje não têm, no fantástico mundo da autossuficiência humana, a máquina estatal nem terá razão de existir… porque até lá ninguém vai precisar mais dela. Antes disso, contudo, é fundamental que se lute para que seja para todos. É necessário sair do transe e construir uma existência amplamente solidária. Nesta jornada coletiva, não faz sentido esperar de Cronos qualquer colaboração, mas é importante que Minotauro e Ícaro participem não mais como rabo de elefante ou cabeça de camarão.


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