Tem que entregar pra quem entende
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Monocarpo é um sujeito unidimensional. É como um ponto que indica o fim de algo que parece que ainda não começou. Ele se acha o vento que anuncia a primavera. Acredita ser singular, embora prolifere cópias suas nas redes virtuais antissociais. É formado por uma universidade federal. Nunca pagou mensalidade. Seus pais gastaram toda poupança familiar em colégios privados. Monocarpo merecia estudar de graça. Era um direito adquirido. Ele frequentou boas escolas. Direito é para quem merece. Pensa que é o seu caso. Já está formado. Aprendeu a raciocinar com serenidade e lucidez. Reflete o seu umbigo, ofuscando os próprios privilégios: sempre invisíveis para ele. Hojepensa diferenteFaculdade é como os colégios que seus pais pagaram: é para quem pode. Quem correu atrás, tem. Se tem, então pode. Seus pais podiamEle também pôde. Seus filhos certamente herdarão o merecimento. Para ele, direito não pode ser coletivo.

Atualmente diz que educação gratuita é privilégio. Luta para acabar com ensino superior federal. Acredita que os governos estatuais farão o mesmo. Educação é só ensinoum escolão resolve. Pesquisa é uma novidade em sua cabeça: defende investimento exclusivamente privado. Extensão, ele nunca ouviu falar. Quer estudar? Tem que pagar. Quer desenvolvimento? Vamos copiar o que deu certo lá fora. O que era para ser criado, já foi. Vamos alugar. Para ele, conhecimento é privado.

Monocarpo defende a total desregulamentação da economia. Não está nem aí para o sistema de transporte. Quem não tiver dinheiroque fique em casa ou vá a pé. Não se preocupa com a transferência da propriedade de toda infraestrutura do país para empresas estrangeiras. Seu nacionalismo é internacional. Não liga para a venda das empresas estratégicas de energia. Eficiência não tem pátria nem bandeira; embora todos os compradores tenham. Também não se aborrece com a liberação de agrotóxicos, nem com incêndios criminosos na Amazônia. Chama de defensivos agrícolas e queimadas tradicionais.

Ele habita um condomínio que se diz “autossuficiente em energia elétrica” e que “participa de coleta seletiva”. Antes de comprar seu apartamento, o prédio principal já tinha painéis fotovoltaicos econômicos e eficientes. Nunca se tocou que todos esse recursos, como o sistema de saneamento, são compartilhados com os demais moradores. Monocarpo jamais pensaria em privatizar o que é seu ou mesmo se desfazer do que é comum. Não faz sentido: vender os elevadores; leiloar toda tubulação que liga os apartamentos à rua; doar o sistema de captação, armazenamento e transmissão de energia elétrica; muito menos tacar fogo no jardim do condomínio simplesmente porque ele pertence aos proprietários.

Vive a lógica das lacunas. Privado é sagradoPúblico é sinônimo de estatalEstado não prestaPrivado tem dono. Logo, público é de ninguém. Monocarpo não associa a ele e aos demais o que deveria ser o bem comum. É público? Não serveTem que venderÉ preciso se desfazer. Não é dele mesmo. Pra prestar, tem que entregar pra quem entendeTem que privatizarleiloardoarSe protestarem, taca fogo! Mesmo assim, não vê que sozinho seu futuro não tem qualquer expectativa de sucesso. Ele acredita em metáforas enlatadas: “o orçamento do Estado é como o de uma família; não se pode gastar mais do que se arrecada”. Seus fornecedores de mensagens prontas ocultaram dele que os investimentos estatais na economia geram novas arrecadações em forma de tributos. São de fato investimentos, não simplesmente gastos, como os que ele tem em casa. Nunca passou por sua cabeça que a atuação do Estado é sempre muito mais dinâmica do que o meme estático que ele engole diariamente. Ele jamais desconfiou que vive completamente anestesiado. Para felicidade dos grandes proprietários do capital financeiro, que lucram especulando com o trabalho e a vida alheios, Monocarpo segue em seu torpor alternando melancolia e euforia. Ele não sabe que é apenas um dejeto largado no campo de batalha: um rejeito que se mexe, xinga e esperneia em defesa do Deus Mercado, que desconhece sua mísera existência. Monocarpo lamenta o desperdício de seu enorme potencial empreendedor. É uma pena. A entidade tem outros problemas para se preocupar.

Vida que segue. Quem sabe, um dia ele será notado. Por enquanto, fica o dito pelo não dito, o rancor sendo cozinhado em banho-maria, o ódio das redes antissociais vomitado na cara dos vagabundos de plantão e a autocomiseração corroendo suas entranhas. Se sobrar alguma coisa, por favor evite levá-lo ao Sistema Único de Saúde. No que depender dele, só existirá saúde privada. Se não sobreviver, por gentileza, evite cremar ou enterrar. Até lá, não haverá serviço funerário para quem não puder bancar. Só interessa ao capital investimento com garantia de retorno financeiro. Desempregado, falido e descartado, Monocarpo não terá como custear a própria morte. Será lembrado como inconveniente.


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