O herói é coadjuvante
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Filho parece substantivo comum, mas é nome próprio: vem logo após o último sobrenome; tão importante quanto os que o antecedem. É herança de família, que parece natural, mas no fundo é mais uma convenção social disfarçada de capricho da natureza. Como todo mundo é filho de alguém, ele seria mais um se não fosse quem o nomeia. Os donos do sobrenome também eram proprietários de uma grande organização: ora apresentada como empresarial, ora lembrada como familiar. Esta corporação é do ramo da comunicação, mas seus negócios são diversificados.

Empreendedor de sucesso investe em várias frentes, mas não atira a esmo. Conquista conectando seus investimentos. Apresenta-se na economia como independente e se articula na política como mediador. É um agente ativo que participa das principais disputas do país, mas quer ser visto como neutro e garantidor do bem comum. Filho é o privado que se disfarça de interesse público, que disputa o Estado fingindo não se relacionar com ele, lutando para manter seus privilégios ocultos sob o manto da suposta dedicação abnegada. Ele vende publicidade mascarada de jornalismo.

Filho defende a liberdade de imprensa… apenas de seus veículos de comunicação. Jamais a liberdade de expressão dos demais cidadãos. Nem sequer respeita o trabalho de seus funcionários, que ele chama de colaboradores e contrata como autônomos, mas exige horário regular e submissão a uma posição específica dentro da hierarquia de suas empresas. Ele diz que é a favor da liberdade de imprensa, como se fosse de expressão; o que ele vende como sinônimos. Censura assuntos e abordagens ao filtrar o que não autoriza publicar. Afinal, ele é o dono do veículo. E como, para ele, liberdade é apenas uma escolha pessoal, a que lhe interessa é somente a sua.

Ele comercializa interesses políticos privados como se fossem o bem comum. Vende o particular como universal. Difama os desafetos. Destrói reputações. Condena inimigos. Traveste justiçamento de jornalismo imparcial. Propala isonomia e equilíbrio, mas oprime grupos não alinhados. Divulga informações sob sigilo do poder judiciário e protege quem as vazou, mas criminaliza opositores que publicam informações que prejudiquem seus parceiros.

De tempos em tempos, sua família escolhe um candidato a herói, que é apresentado como benfeitor abnegado e acima de qualquer suspeita. Sua imagem está sempre protegida. O defensor da liberdade de imprensa proíbe que se publique qualquer matéria que comprometa o herói de estimação. No mundo dos negócios, Filho se apresenta como liberal em prol da liberdade de oportunidades e da igualdade de condições. Nos bastidores das disputas políticas, prima pelo monopólio do discurso, da verdade e de seu capital. Não joga limpo, nem em campo aberto. Manipula informações em benefício próprio, como se fossem de interesse da grande maioria da população. Diz que a lei é para todos, mas procura usá-la para si e em prejuízo dos concorrentes: faz campanha para magistrados e criminaliza adversários.

Sataniza a política posando de neutro. Apresenta seus prepostos como independentes do Estado e das lutas governamentais, ou simplesmente como mediadores de conflito entre os subalternos na periferia. Seu herói do momento sofre desgaste. Está quase no talo, mas ainda recebe uma mão de verniz. Tem se virado como pode, acreditando que “o tempo rejuvenescerá” suas “virtudes”, outrora enaltecidas. O salvador acredita que logo sua “imagem ganhará nova roupagem e fôlego para uma redenção eleitoral”. As crises passamTodo herói precisa passar por provaçõesTodo investimento de capital necessita de algum risco para obter legitimidade social.

Filho defende a livre concorrência, mas se dedica a prejudicar os concorrentes. Arrota diversidade, mas neutraliza e destrói o diferente. Inviabiliza as demais variáveis para garantir seus interesses como única resultante. Aniquila o outro e se apresenta como voz de consenso. Discursa participação popular construindo o monopólio do poder. É um autoritário que difama a política e mercantiliza o patrimônio público como se defendesse a soberania nacional.

No final das contas, é um filho que ninguém conhece e que se beneficia da criminalização do outro e da sacralização dos seus… aliados de ocasião. Com o tempo, os escolhidos também precisam ser renovados. E a ocasião pede um descarte. Afinal, preposto é que nem cueca. Ele usanão empresta e manda lavar para usar de novoQuando não precisa maisjoga fora.


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