Política, palavra satânica
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Poliana é mais uma ilha de virtudes no oceano da corrupção. Felizmente para todas essas ilhas, a distância que as separa é muito grande. Um potencial arquipélago perturbaria a singularidade e a pureza moral de cada um destes paraísos. A simples convivência entre seres tão virtuosos macularia a todos. O isolamento apenas reforça a autoimagem honrada do núcleo e a projeção esculhambada do entorno.

Ela diz que já se identificou com a direita e com a esquerda. Mas que nada disso tem importância hoje. Ela nunca ligou nem para eficiência empresarial ou laços tradicionais, nem para igualdade coletiva ou justiça social. Ela sempre se preocupou somente com a pureza de princípios. Quaisquer princípios, desde que sejam os dela. Os demais jamais foram ou virão a ser puros. Os outros precisam se relacionar. E isso para ela sempre foi sujo, sempre representou a ameaça de ser vista conspurcando na imundicefazendo políticapalavra satânica.

Poliana odeia políticosPra ferrá-los, ela vota nos caras que não são políticos. Ela odeia os partidosDefende um herói antipolítico, que trabalhe como um bom gestor do Estadotécniconeutroapartidário, que, como ela, não se misture, mas lute contra os aproveitadores e não faça política. Ela espera alguém especial, contra a corrupçãoo ungido do Senhor. Tem convicção de que todos os políticos são ladrões, vagabundos, parasitas,  de que não atuam por idealismo, mas só pra se enriquecer. Poliana participa de manifestações cívicas em prol da pátriasem receber dinheiro de governo. Ela diz que não tem interesse ideológico.

Quem defende político, apoia partidos, faz política… está recebendo alguma coisa do Estado. Poliana, não. Ela não tem nenhum parente que seja funcionário públicoNão tem amigo bandidoque só pense em se dar bem roubando o povoNão conhece ninguém do governo. E não precisa do EstadoVive do próprio mérito. Ela é dona do que possuiConquistou sozinha. O que deseja, ela mesmo compraÉ contra impostosSonegação não é crimeé o direito à legítima defesa do cidadão! Ela defende o fim do Estadoa purificação da sociedadea extinção dos partidosa destruição da políticaa redenção dos pecadosa ordem eternaamém!

Ela diz que os políticos vivem de mamatas, que não representam seus eleitores, que acham que independem da sociedade. Ela nem desconfia que os grandes financiadores de campanha são mais poderosos que os tais políticos. Não passa por sua cabeça que os principais interesses em jogo não são os dos funcionários da banca, míseros crupiês, mas os dos banqueiros, os verdadeiros donos do cassino.

Poliana nunca percebeu, mas o seu problema real é aceitar que viver implica em negociar, em ceder, em se relacionar com os outros, concordando ou não com eles. Ela precisa continuar acreditando que sua coerência biográfica se mantem imaculada em função de sua suposta castidade moral. Ela se vê como uma ilha de higiene cercada por um oceano em putrefação. Cada vez menor, cada vez mais distante, perdida no meio do mar, da ilha só se avista o horizonte. E ela só enxerga a poluição que circunda suas praias. Brada com um idealizado asco ascético: nada prestao mundo está perdido!

Quanto mais distante estiver dos outros, mais limpinho será o recheio e mais contaminado, tudo o que ultrapassar a borda. Quanto mais isolada for a ilha, menos compreensiva se tornará a periferia e mais autoindulgente, o núcleo: essencialmente probo e casto. Os políticos são a encarnação do malfonte de todo o pecado. Poliana se vê como o reverso da maldade, exemplo de pureza e retidãoa reserva moral da sociedade.

Ela não participa de nada que demande diálogo e negociação, que pressuponha responsabilidade compartilhada. O outro é sujoSua vida é imunda. Qualquer contato como ele profanaria as virtudes de Poliana. Seu afastamento garante a sacralização de si mesma. Seu compromisso não é com o outro, mas com sua própria pureza de princípios. Ela é a régua que mede o universo, o padrão para todas as coisas.

Não sabe que tudo em sua vida envolve o outro, implica algum tipo de relação com outro. Ela desconhece que qualquer julgamento, sentença ou execução compreende algum nível de dominação… que nem ela nem o outro estão sozinhos, longe das relações de poder, ou mesmo isentos diante do domínio das decisões… que são, por definição, políticas. Não tomá-las não nos faz ilibados ou incorruptíveis, apenas nos caracteriza como omissos. Abrir mão de decidir também é um ato político, mesmo mascarado de neutralidade.

Ela não percebe que o ódio à política representa a negação do diálogo, a inviabilização da convivência consensual. Sua ação, que ela acredita não realizar, reafirma a própria dinâmica da política. Só que neste caso, no limite, o movimento, que não é só seu, submete todos a um único viés: o da opressão disfarçada de redenção. E Poliana segue acreditando na pureza de sua alma, reafirmando a santidade de seu herói mítico e satanizando as relações de poder: a política… alheia, do outro.


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