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by Claudio Gurgel e Laura Abrantes

Os bancos centrais de países desenvolvidos, como Japão, Suécia e Dinamarca, estão oferecendo os seus títulos a taxas de juros negativas, -0,1, -0,25, -0,75% respectivamente, ou zeradas, como é o caso da maioria dos países europeus(https://pt.tradingeconomics.com/country-list/interest-rate). Quando isto não acontece, o mínimo que tem ocorrido é a queda dos juros básicos, como recentemente se deu nos EUA e Brasil. Significa dizer que se você investir em título público alemão ele não lhe pagará nada e se for um título japonês você a cada ano perderá 0,1% do que “investiu”. Os bancos continuam a cobrar juros positivos, de quem toma empréstimos, mas são impelidos a diminuir suas taxas cada vez mais e os papéis privados seguem na mesma linha: rendem, mas nem tanto. Porque isto está acontecendo? Há um motivo fundamental, portanto associado a fundamentos econômicos: os Bancos Centrais estão querendo estimular a propensão a  consumir e a investir. Mas qual é a causa da retração do consumo e desinteresse por investir que leva os governos a radicalizarem suas políticas monetárias, a ponto de chegarem a juros negativos?

Pobreza, concentração de renda e envelhecimento precoce do toyotismo

A retração do consumo está associada a dois fenômenos distintos: o primeiro e mais grave é a incapacidade de compra de milhões de pessoas, com remuneração baixa e/ou incerta, decorrente da precarização do trabalho, ou ausência de remuneração, pelo desemprego. A baixa renda e a insegurança no emprego não incentivam a comprar, pelo contrário. O segundo fenômeno é o oposto: a concentração de renda, que continua a crescer em todo o mundo conforme os levantamentos de várias origens (World Wealth & Income Database, World Inequality Database, OCDE). Essa movimentação assimétrica, de mais pobreza na base e mais riqueza no topo é ilustrada pela informação da pesquisadora Deborah Hargreaves, citada por Martin Wolf, em sua coluna no Financial Times: no Reino Unido, a relação entre a remuneração média dos executivos-chefes e a remuneração dos trabalhadores de base era 48 para 1, em 1998, e avançou a 126 para 1, em 2016. A mesma relação nos EUA passou de 42 para 1, em 1980, a 347 para 1, em 2017 (Valor Econômico, 20/09/2019, p. A13). Segundo a World Inequality Database (https://wid.world/), o 1% mais rico dos EUA detinha 11% da renda nacional, em 1980, e passou a controlar 20%, em 2014, quase dobrando a concentração em pouco mais de 30 anos. Este consumidor rico está encontrando pouca motivação para gastar. A capacidade de inovação nos produtos e a obsolescência acelerada não estão dando conta do volume de riqueza acumulada. É como se a administração flexível e o toyotismo tivessem envelhecido precocemente; sua diversificação e melhoria contínua não mexem mais com os capitais e as rendas superacumuladas. A riqueza está indo para a poupança – mesmo que ela não renda nada e até custe alguma coisa. No Brasil, a poupança perderá da inflação em novembro. Com Selic a 5% e a TR em zero, temos rendimento de 3,5 ao ano, o que significa 0,29% ao mês. A inflação prevista de 3,4 (IPCA de novembro, segundo o Boletim Focus) vai impor ao poupador a perda de 0,05%.

Realmente P nem sempre é igual a I

Quanto a investir, mais uma vez se demonstra que a poupança, P, nem sempre se transforma em investimento, I. Este foi um dos conflitos teóricos de Keynes com os economistas clássicos. O financista inglês procurou demonstrar, na Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, que P só se transforma em I se o investidor se sentir atraído por tomar o dinheiro no banco (poupança) e investir em algum negócio ou no seu próprio negócio. Isto é, se estiver convencido de que vale a pena, porque tem compradores/clientes para seu produto e a taxa de lucro, recolhidos os impostos,  é maior que o juro pago. Não há automatismos nem fantasias. Há cálculo. Se o consumo das famílias cai e o governo não investe porque está preocupado com a dívida e o déficit público, o empresário também entra na onda de cautela e desaceleração. Não investe, não amplia seu negócio, não abre novas frentes de produção, emprego e renda. Tal como todos os mais ricos, prefere poupar seu capital. O professor Furman, de Harvard, e  Peter Orszag,  Chief Executive Officer do Lazard Financial Advisory, em estudo sobre a concorrência, trazem a informação de que a taxa de abertura de empresa nos EUA caiu de quase 14% ao ano para pouco mais de 8%, de 1980 a 2015, como se pode ver no texto de Wolf já citado.

Conclusão

Os governos querem estimular o consumo e o investimento com juros baixos e até negativos. Mas isto não parece levar ao crescimento e a novo ciclo virtuoso. Há cinco anos que países da Europa estão insistindo nessa estratégia. No entanto, as taxas de crescimento tendem para baixo. A produtividade nos países desenvolvidos cai desde os anos 1990. Interrompida nos anos iniciais do século XXI, a tendência se acentuou a partir de 2008 (The Conference Board Total Economy Database, 2016).
No Brasil, quando Michel Temer assumiu em maio de 2016, a taxa básica de juros estava a 14,25 a.a (https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/historicotaxasjuros), enquanto o crescimento do PIB naquele trimestre fechou a 0,6% (https://www.ibge.gov.br/explica/pib.php). Encerrou seu período de faixa presidencial com a taxa de juros a 6,50% a.a. e crescimento da economia a pouco mais de 1%. Ao longo de 2019, manteve-se a média de 1% de crescimento do PIB, mesmo com a redução contínua da taxa de juros do mês de novembro, como dissemos, a 5,0% a.a., a menor marca registrada pelo Banco Central do Brasil. Por aqui, a estagnação do crescimento mesmo diante da política continuada de redução de juros persiste, o que também indica um esgotamento desse recurso.

Ou os governos voltam a investir, eleva-se a estabilidade no emprego, melhoram-se os salários e recuperam-se as políticas sociais, ou talvez vejamos nova onda de centralização do capital e novas falências e retrocessos trabalhistas, econômicos e civilizatórios. O discurso reformista liberal parece não ver o óbvio. Ainda que a OCDE, o Banco Mundial e até Armínio Fraga já o tenham percebido e alertado que a terceira onda do neoliberalismo, mais radical e grosseira, nos está levando para a recessão mundial.


obs,: Você se indagará sobre a Suécia e a Dinamarca, mas ficará mais surpreso ao saber que esses países tiveram drástica redução dos investimentos públicos, produto dos seus recentes governos liberais.


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