Sócio não é família
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Enzo é um megainvestidor. Tem um enorme senso de oportunidade. Investe em grandes negócios. Sua família é proprietária de volumosos recursos financeiros. Seus investimentos são diversificados. Seu capital está aplicado em vários empreendimentos e ele não investe sozinho. Os negócios nunca foram exclusivamente seus ou de sua família. O capital é aberto. Sua participação é majoritária em algumas transações e, minoritária em outras. O importante, para ele, é que os empreendimentos possam fluir… em todos os continentes, a todo momento e associados a inúmeros parceiros. Suas decisões financeiras não têm prévias restrições étnicas, religiosas, geográficas, culturais. Sócio não é famíliaMas é coisa séria.

A despeito de eventuais oscilaçõesos negócios familiares sempre cresceram. Seus principais investimentos estão no Brasil. Nos anos noventa, comprar empresas do Estado, na bacia das almas, demonstrou ser algo rentável. Naquela época, a participação de Enzo era minoritária. As informações circularam, mas não chegaram a ele como esperava. Faltou-lhe uma rede de relações mais influente para iluminar o caminho das pedras. Aproveitou para se dedicar aos fundos de investimentos, às redes relevantes de relações, aos círculos de poder. Ampliou seu capital em todos os sentidos.

Os anos dois mil trouxeram a possibilidade de expansão além do mercado financeiro. A indústria naval pareceu atraente. A construção civil, ainda mais rentável. O comércio de varejo apresentou grande potencial. O agronegócio despontou como investimento seguroEram muitas possibilidades. Enzo aproveitou as oportunidades. Diversificou seus negócios. Atuou onde poderia fluir. Sabia que os ventos iriam mudar. Trabalhou com ativos sem imobilizá-los por muito tempo. Potencializou a liquidez dos seus investimentos. Capitalizou-se ainda mais.

Nas últimas décadas, acompanhou mais de perto a dinâmica do Estado. Participou dos movimentos que sustentaram e substituíram governos… não nas ruas, mas nos centros de decisão. Ele não era colérico. Seus confrontos se davam em ambiente climatizado. Não abominava a vida política. Enzo foi cultivado em círculos de prestígio. Negociava. Não odiava governantes. Não atuava na linha de frente de manifestações midiáticas. Tinha classe. Terceirizava o ódio. O aspecto operacional do espetáculo nunca o interessou. Jamais visitou o departamento de contenção. Seus prepostos intermediavam o contato com os gerentes do porão, que sempre resolviam conflitos e contestações. A distância hierárquica inviabilizava qualquer contato mais próximo com os agentes da repressão.

Ávido por rentabilidade, Enzo enxergava longe: novos temposnovos negóciosOs ventos mudaram e Enzo ajudou a instalar a tempestade. Participou do butim por merecimento. Seu quinhão veio com o desmonte do Estado. Demonstrou grande empenho na construção da destruição. Não há criseO que há é oportunidade de negóciochance de novos investimentosmomento de faturar com a falta de recursos do Estadoabundância de capital e as costas quentes dos agentes da nova política.

Sem sobressaltos e muito bem remunerado por décadas, o capital financeiro demandava novos desafios. Adquirir o patrimônio estatal, mais uma vez na bacia das almas, era a grande meta de Enzo: bem articulado e influente proprietário de parte do capital disponível. O objetivo era arrematar empresas estabelecidas e conquistar nichos de mercado no grande bazar da destruição nacional.

A exigência era fluir o capital. O acordo era disponibilizar recursos do Estado. Como articulação e controle só valem mesmo se o caçador tiver bala na agulha, a oportunidade dependia do tráfico de influência, da oferta de capital, da disponibilidade de recursos a serem dilapidados e da segurança jurídica e militar. O momento era perfeito. Enzo dispunha de tudo isto. Só não contava com o crescimento paralelo da autonomia do porão. A segurança jurídica havia se apaixonado pelo seu sequestrador. A suposta legitimidade militar cedeu terreno para a milicianização das relação econômicas. A nova política trazia velhos agentes. Eram grandes oportunidades agora nas mãos de novíssimos empreendedores.

Enzo se viu refém de um poder que ele sempre acreditou estar sob controle. Jamais pensou que quem foi destinado a reprimir opositores um dia poderia se convencer de que fazer o serviço sujo permitiria tomar o seu lugar de investidor. Tão seguro de si e de sua família, hoje Enzo tem dúvida sobre quem está subordinado a quem. Ainda está digerindo sua nova relação com seus novos sócios da pesada.


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