Tudo se encaixa
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Júlio é empacotador. Organiza e divide tudo em caixas: grandes, pequenas, de todos os tamanhos. Ele organiza a vida: as atividades, os compromissos, as relações, as emoções, as aflições. Tudo se encaixa perfeitamente em suas caixas. Não é de hoje. Arraigou-se em Júlio o hábito de ver o mundo ajustado em seus diversos compartimentos. Reconhece que tudo sempre encaixa bonitinhoTudo sempre cabe em suas caixas. Nada fica de fora. Júlio é um competente organizador.

Encaixotada, cada coisa parece particular e tem o seu lugar. Mas são muitas. E Júlio não quer perder a visão de conjunto. Os encaixes frequentemente estão em conformidade com o todo. Sempre sugerem uma ideia de harmonia. E, juntas, todas as coisas são isto mesmo: coisas. Muitas pessoas ficam guardadas dentro de uma ou duas caixas. E são várias: pessoas e caixas. A todo instante ele renova a sensação de estabilidade, que legitima a construção de um painel amplo e seguro. É tudo inato. Já nasceu pronto e acabado. Não parece suposição. Para Júlio, todo mundo é essencialmente natural, puro e imutável.

Taxista é individualista. Porteiro é fofoqueiro. Pedreiro é picareta. Vendedor é trambiqueiro. Faxineiro é encostado. Pivete é pivete mesmo. Aguarde mais um instante, que o telemarketing vai estar concluindo o seu pedido. Ambulante é mal-educado. Balconista é intratável. Flanelinha é desocupado. Recepcionista é humilhável. Amigo de verdade é a gente e mais ninguém. O outro, que se diz amigo, acaba mesmo é te passando a perna.

Toda caixa é aquilo que tem dentro. E tudo ali é igual. Tornou-se quase um cofre, que nem ele tem a chave. Cada caixa particular é uma generalização pontual a respeito do seu conteúdo. Se está lá dentro, é exatamente aquilo que Júlio acredita ser. Só ele é singular. O resto do mundo é universal. Fulano é isso e aquiloBeltrano é todas aquelas coisas que Ciclano também éÉ óbvio. Basta olhar para a caixa.

Quem se esforça, conquistaQuem não tem competência, não se estabelece. Político é corrupto. Sacerdote é pedófilo. Crédulo é alienado. Policial é assassinoViadinho é dissimulado. Subserviente é santa. Travesti é depravada. Mulher independente é puta. Homem trans é recalcadoFavelado é bandido. Assento para deficiente-velho-grávida é privilégio. Só existe família igual à minha. Se não for, é sacrilégio.

Júlio generaliza sem perceber. Seu rigor matemático é preciso. Ele não faz aproximações. Prima pela exatidãoNoventa-e-nove-vírgula-nove-por-cento das pessoas são desse modo. Apenas zero-vírgula-zero-um é daquele outro. Júlio está convicto de que pensa como estatísticoContra dados não há argumento. Tem segurança absoluta de suas avaliações. Não dá palpiteEntende do que diz. Não enxerga particularidades. Não olha mais o seu interlocutor. Vê apenas gente empacotada, etiquetada e arquivada em suas caixas.

Ele afirma que não é discriminador. Acha que é apenas um inocente classificador. Sem saber, organiza suas caixinhas segregando o conteúdo. Ele vê todos em alguns. Às vezes só em um. E nem este ele enxerga. Júlio não liga para detalhes. Mulher no volante… perigo constanteJudeu é avarentoNeguinho é ladrãoEuropeu é fedorentoBugre é indolenteVizinho é barulhentoJaponês é prepotenteCrente é oportunistaPapa-hóstia é idólatraMacumbeiro é satanistaToda loura é burraDireitista é egoístaEsquerdista é autoritárioMorramedi é terroristaFeminista é rejeitadaAlemão é arroganteSapatão é catinguentaA baianada é ignorante.

Menina usa rosa. Menino usa azulCigano é trapaceiroRolha-de-Poço é preguiçosoEslavo é cachaceiroXing-Ling é asquerosoSarraceno é irascívelCarcamano é escandalosoPolaco é rude e toscoPatrão é gananciosoEmpregado é vagabundoAteísta é mentirosoAfricano é miserável. Dependendo de quem fala, basta embaralhar as frases e escolher outras palavras. Dá no mesmo. O outro é sempre estúpido. O diferente é uma ameaça. Quem não foi citado, escapou de ser lembrado porque nem pra isso presta.

Como muitos, Júlio reconhece alguém assim, que lembra de um outro assadoQuase todo mundo conhece um camarada que generaliza como ninguém. Ele enxerga somente estereótipos, que lhe dão a percepção que acredita ser a verdadeira realidade. Mergulha na mais absoluta convicção. Desenha caricaturas, que aprecia como uma paisagem. Afunda tudo em generalizações. O planeta inteiro cabe em seu arquivo.

Todo mundo conhece algum Júlio. Todo mundo distingue em alguém um pouco de Júlio. Ao mesmo tempo, cada um se acha único. E reconhece que noventa-e-nove-vírgula-nove-por-cento dos demais agem como ele. Exatamente! Júlio são os outros! Está cheio deles por aí!


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