Pra não dizer que não falei das flores
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Rita está catadora. Levanta cedo. O dia vai nascer. Ao longo da vida, ela já se dedicou a muitas atividades. Fez várias coisas. Esteve em tantas outras. Não escolheu nenhuma delas. AconteceramCada dia é um novo desafio. A viva a levou a fazer um pouco de tudode todas as coisas. Não as desejou. Não foram sonhadas. Tornaram-se parte de sua vida. Todo dia parece que ela faz tudo sempre igual. Sua filha brinca com uma boneca de pano enquanto Rita vasculha o conteúdo de sacos e caçambas. Nem sempre existiram tantas Ritas e suas filhas pelas ruas. Hoje são muitas. Amanhã será outro dia.

Margarida é filha de Rita. Tem sete anos e nunca foi à escola. Para este ano, não tinha vaga. Ela passa o dia acompanhando a mãe pelas calçadas da cidade. Rita não gostava de escola. A escola também não gostava dela. Seus professores tinham certeza de que “a escola não era para ela”… de que Rita “não tinha o perfil para disciplina”. Ela não percebeu, mas aprendeu muito na escola. Aprendeu a acreditar que a escola não era para ela… que ela não tinha capacidadetalento ou vocação para os estudos. Essa é a “grande realização” de uma “boa instituição de ensino”. Pode não parecer, mas ela é sempre bem sucedida em ensinar. Esse é o verdadeiro sucesso escolar.

Sua invisibilidade é uma prova disso. Rita nunca foi associada à escola. Nunca foi lembrada por esta instituição. Nem antes, nem depois de ir embora. As conquistas que sempre são recordadas, passaram pela escola e se realizaram por “mérito próprio”. Rita não estava lá. Para os demais, os “vitoriosos” suplantaram “todos os desafios”. Superaram “todas as expectativas”. Tirando as exceções que insistimos em ver como regra, tiveram mérito todos aqueles que cumpriram com a responsabilidade de estudar… com os recursos, o vocabulário, os sonhos e o incentivo que trouxeram de casa. Seu esforço não deve ser desmerecido, mas nem por isso precisa ser superestimado. Diferente de Rita, quando concluímos os estudos, acreditamos que somos um sucesso por “esforço próprio”. Desconsideramos a linha de partida, o processo pré-construído, a trajetória percorrida. Os outros são um fracasso devido à sua “própria negligência”. E são muitos os fracassados. Sempre outros. Muitos outros. Mesmo assim amanhã ainda será outro dia.

Rita catajuntaseparaseleciona. Trabalhava sozinha. Vendia rapidamente o que catava. Não tirava quase nada. Atualmente não está mais só. Rita se juntou a outras catadoras. Hoje trabalha com elas em uma associação. Tocam uma cooperativa, que não se limita a existir formalmente. É muito mais do que um número de registro na prefeitura… muito mais do que um documento oficial ou uma empresa de fachada. Lá, todas trabalham e têm acesso direto ao fruto deste trabalho. Não é muito o que recebem com a venda do que reciclam, mas Rita entende que é um trabalho digno, que outras pessoas valorizam, que nem sempre ela é vista como uma “mendiga que perambula com a filha pelas calçadas da cidade”.

Sua filha vai entrar na escola no início do próximo anoDesta vez conseguiu uma vaga. Margarida está contente. Ano que vem vai ser diferente. Sua irmã, Rosa, está para chegar. A família vai crescer. No trabalho, a cooperativa não é lixoÉ vida. Rita está feliz com o pequeno pomar, que ajuda a cuidar, e com o pequeno jardim, que faz florescer. Juntas, ela e suas companheiras constroem o presente. Não esquecem o passado. Rita sorri com futuro. Serão muitas rosas e margaridasAmanhã há de ser outro dia.

Ela e suas colegas participam de um trabalho de educação popular. Começaram este ano. Rita voltou para os bancos escolares. Ela acha que é outra escolaoutra maneira de ensinaroutra forma de aprender. Rita compartilha sua experiência de vida, tudo que aprendeu, com as pessoas envolvidas nesta nova experiência. Ela diz que aprende e também ensina… e que todo mundo lá faz o mesmoSão pequenas conquistas. Hoje ela lê de verdade. Ela entende o que lê. E gosta de ler. É importante estudar.

Rita não fez as pazes com a escola. Nunca brigamos. Ela entende que agora faz parte de uma. Depois de um longo dia de trabalho, ela volta da escola e bota Margarida para dormir. O dia passou. Acaricia Rosa em sua barriga. A noite já está quase no fim. Hoje é praticamente ontem. Amanhã vai ser outro dia.


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