É tudo brincadeira
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Ridiculum ria de tudo, ria de todos, menos dele próprio. No fundo, era muito sério para ver graça além da desgraça alheia. Achava que era meio rei, meio bobo da corte. Talvez por isto não houvesse quem risse dele. No fim das contas, não entendia que fora um bobo sem corte que havia se tornado o monarca que destruiu o reino. Parece difícil de acreditar, mas “é verdade esse bilhete”. Tudo depende da chancela de quem conta. Não é o caso deste personagem narrador. Quem atestou a veracidade do bilhete foi uma autoridade inconteste da atualidade: o valente Guru das redes antissociais, oportunamente apresentado.

Comprovada a autenticidade documental, enfim podemos ter contato com a riqueza do achado. Na época, para o império, as invasões bárbaras estavam na ordem do dia. Forças orientais questionavam a supremacia de Roma. Antigos domínios desgarravam-se do controle central. Dos notáveis e subservientes, apenas o provinciano Ridiculum alcançou fama e unanimidade internacionais. Foi muito falado pelos vizinhos “incivilizados”. Mas isto faz tempo. De lá para cá, “o mito” andou esquecido.

Agora sabemos: Ridiculum é nosso contemporâneo de outra época… uma espécie de paradoxo do anacronismo. Nascera em uma área rural isolada nos cafundós da periferia de uma província distante do que havia sido o império romano. Longe, mesmo. Distante no tempo e no espaço. Fez sucesso como aspirante a cavalheiro rude e fanfarrão. Desrespeitava constantemente seu suserano e foi expulso do corpo de guerreiros. Acreditava contar com a lealdade dos vassalos, pois se empenhava em defender os seus. Para demonstrar bravura, ridicularizava os de cima pelas costas. É tudo brincadeira. Queria o reconhecimento do espírito de corpo, mas era visto como insubordinado e “espírito de porco”. É tudo brincadeira. Expulso do corpo, ganhou a vida como negociante dos que não tinham representante. Para os de baixo, descontentes e silenciados, Ridiculum se vendia como a verdadeira voz das armas. Eu sou favorável à tortura… a uma guerra civil… E fazendo um trabalho que a falange imperial não fez: matando uns trinta mil. A voz dos que tinham vergonha em público das atrocidades que fizeram em nome dos soberanos de então. Nós vamos trucidar os pagãos! kkkkk.

Pesquisadores renomados da Université de Bouffon atestam que as características linguísticas da expressão oxítona kkkkk remetem a um totem ancestral dos primeiros séculos da Era Comum conhecido naquele contexto como “intellectus diminutivum“. Presunçoso, Ridiculum menosprezava a referência. Dissimulava simpatia, mas exalava prepotência. Indagado se estaria virando um vândalo do norte: só está faltando crescer um pouquinho a cabeça. kkkkk. Segundo especialistas, a pronúncia e o significado lembrariam hoje o francês da região subterrânea de Égout. A incontinência consonantal tem sido interpretada como um alerta de suspensão de hostilidade. Ele bufava: É tudo brincadeira! Tá oquei? Não caberia interpelação judicial. Ainda mais em uma época em que o direito romano estava de férias. Nem precisaria de qualquer preocupação.

O bobo tudo podetudo diz. Ninguém poderia se ofender. É tudo brincadeira. Ridiculum seria um personagem inofensivo se não tivesse passado a ser admirado por seu intrépido sincericídio. Caiu nas graças dos recalcados de plantão. Curtiam tudo que não tinham coragem de dizer em público. Riam das tiradas de Ridiculum, que debochava de todos, menos dele mesmo. Regozijavam-se com o destemor do bobo. Tinham-no como herói.

Um dia Ridiculum descobriu que, como bobo, poderia falar o que quisesse e fingir que brincava. Poderia debochar até do rei. Mas preferia humilhar os de baixo destilando o ressentimento de nunca ter sido valorizado pelos de cima. Tirando os seus, ria dos demais. Mais tarde entendeu que como bobo popular poderia mais. Poderia ser mais que bobo. Poderia ser o próprio rei. Acreditou que podia dizer o que ninguém tinha coragem. Convenceu os de cima de que tinha as graças dos de baixo. Tinha certeza de que fora abençoado: era o ungido do Senhor. Sagrou-se rei e pilhou o próprio reino, que nunca foi seu.

Só havia lugar para bajuladores que rissem com ele do próprio constrangimento… que ele jamais percebeu. Quando muito, dizia que era falta de senso de humor. Que saco! A gente não pode mais falar nadaA patrulha do politicamente correto encrenca com tudoPois isso acabouAgora estamos sob nova direçãoAs minorias vão ter que se curvarkkkkk. Vivia uma espécie de alegoria do homem da caverna. A licença poética do ressentimento. Coisa de quem fala fino com o suserano e grosso com a vassalagem. Coisa de quem posa sério para o retrato, mas tem o riso frouxo na hora de ridicularizar os humilhados. O verdadeiro teatro da arrogância. Ridiculum fora ele próprio uma homenagem ao seu suposto senso de equilíbrio. Banido com o tempo, foi esquecido pela história.


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