A rebeldia retórica sem noção
Compartilhe nas redes sociais
  •  
  •  
  •  
  •  

Guru é uma verdadeira vestal verbal. Sua pureza de espírito e seu vasto e rigoroso conhecimento científico impressionam até mesmo as mais exigentes personalidades acadêmicas. Sempre disposto ao diálogo, não transige com a transigência. Caralho, porra! E a polêmica oral se estabelece. Filho de uma puta! Substantivo, adjetivo, interjeição ou apenas uma gentileza espontânea: uma espécie de vírgula idiossincrática? A disputa é acalorada. Tu é burro pra caralho! Muitos neófitos interpretam o grunhido como uma espécie de assinatura pessoal. Ora, porra! Não chega a ser propriamente uma palavra. Vai se foder! De fato, não possui intenção semântica. Combustível fóssil é o cu da sua mãe! Não pode ser traduzido como uma ofensa. Porra! É quase um sinal de pontuação. Um adereço comunicativo. Um cacoete retórico.

Bem mais entusiasmada é a discussão a respeito de expressões complexas. Vai tomar no olho do seu cu, cacete! Parece imperativo, mas é pouco categórico. Seu intento certamente remonta aos primórdios da polêmica escolástica sobre a infinitude quântica da metafísica aristotélica. Puta que o pariu, porra! Somente um leigo poderia ver em expressões tão singelas qualquer conotação chula. Os verdadeiros sábios identificam prontamente a erudição e a finesse do palestrante. Iniciados no hermético conhecimento filosófico, compreendem imediatamente a estratégia propedêutica do valente Guru. Caralho, porra. Tu é burro, mesmo! Nem todo mundo teve a oportunidade de ser cultivado em um vaso de carvalho. Requinte intelectual e palavras bonitas se confundem neste oceano de polidez e sapiência. Vai a senhora tomar no cu agora mesmo! Vai chupar uma piroca, sua vaca filha da puta! “Benditos sejam os palavrões!”, rejubila-se um discípulo-sacerdote.

Toda novidade é geralmente controversa. E a vestal verbal divulga as informações comprometidas com a verdade absoluta. Não foi diferente com a história que será relatada. É necessário contextualizar o debate para situar quem lê e se preocupa com o rigor metodológico destilado pelo auspicioso Guru. Hoje abordamos o sábio e sua verborragia. Semana que vem, o conteúdo de sua revelação. Vamos, então, à origem do material descoberto, detalhando o achado nesta despretensiosa nota técnica de divulgação científica.

A partir de escavações astrológicas reveladas esta semana pelo inquestionável correspondente internacional e dublê de filósofo, Guru, foram encontrados documentos históricos irrefutáveis sobre a vida de um notório líder político-religioso ancestral da linhagem sagrada dos homens de bens. À despeito da inveja de seus detratores, o animador de redes antissociais trouxe à luz a trajetória biográfica deste renomado personagem histórico. Paulatinamente indesejado e esquecido como leproso, hoje podemos conhecê-lo em detalhes devido às maravilhas do conhecimento axiomático difundido pelo mestre-dos-magos.

Fruto da mais precisa técnica científico-especulativa, os manuscritos foram submetidos à rigorosa análise proposta pelos discípulos da química transcendental de Flamel. A veracidade dos achados pôde ser comprovada pela fidedigna palavra do prolixo Guru, que constatou, por meio da observação teórica da precipitação do isótopo de papel carbono dezessete, tratar-se de autêntico conjunto de documentos papíricos do período seminal do opróbrio da saudosa Roma imperial. Meu filho, eu sou foda!

Embora tenha sido questionada pelos farsantes da decadente universidade pública — muitos dos quais atualmente resistem em comercializar suas pesquisas no santo mercado de Mamon —, a revelação foi imediatamente reconhecida pelos mais influentes e destacados sábios de ocasião. O atraso na divulgação da descoberta, contudo, se deveu à conhecida conspiração Illuminati do Foro de São Paulo que ocultou nos porões da KGB os documentos supracitados. Rompendo o silêncio imposto pelo eixo do mal, o destemido Guru surpreendeu mais uma vez a comunidade científica internacional ao divulgar a verdade sufocada pela ditadura globalista. Pois bem, hoje temos conhecimento do precioso documento e de sua autenticidade. Em breve abordaremos a criatura revelada, seu contexto histórico e sua trajetória redentora.

Naquela época, como no presente, o fato é que, no confronto entre geocentrismo e heliocentrismo, não existe nenhuma prova definitiva de um lado nem do outroNão há e não pode haver nenhuma prova da teoria da evoluçãoEla não vale um peidoÉ totalmente furada. Também não podemos comprovar o efeito benéfico das vacinasMarx era satanistaHitler era vegetarianoFascismo e nazismo eram de esquerda. Meia volta volver! Reacionário é o cacete! Semana que vem superaremos o futuro! Alcançaremos o passado! E viveremos a consolidação da divina ordem terrena: a magnífica transição para a sociedade estamental! Alvíssaras!


Compartilhe nas redes sociais
  •  
  •  
  •  
  •  

Leave a Reply

Your email address will not be published.