Fragmentos da eternidade
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Toda Poderosa é uma personagem especial: Ela é a Criadora-de-todas-as-coisas. O que certamente não é pouco. Qualquer pequeno detalhe poderia ser descrito como “um dia em Sua vida”, mas isto não faria muito sentido. Fragmento da eternidade parece se adequar mais a esta Grande figura. Diferente de quem lê ou escreve, Ela é antes de tudo um Ser bem-humorado, que lamenta muito o uso limitadamente moralista do tal livre-arbítrio. Se era para ficar perturbando a vida alheia, Eu preferia não ter criado esse bando de frustradas. Se era para aporrinhar as outras, Eu mesmo ficaria apontando as falhas dessas criaturas tão soberbas.

E Ela tem razão. A obsessão com a vida alheia de fato é uma limitação desenvolvida pelo próprio algoritmo do livre-arbítrio. Fazer o quê? São limitadas, mas fui Eu que as criei. Ela sorri. Ao tornarem-se piromaníacas, só Me restou, mesmo, curtir esse espetáculo circense. Então, Eu sempre reservo um fragmento da eternidade para assistir ao circo pegar fogo… e deixo a vida delas Me levar por um instante.

A Criadora-de-todas-as-coisas não se aborrece com nada, nem mesmo com o papinho de “blasfêmia” que Suas criaturas insistem em carimbar na testa umas das outras. Elas têm regra para tudo. Não se pode falar sobre a Toda Poderosa “porque é blasfêmia”. No entanto, para elas, falar por Ela pode. A Criadora se diverte com Suas representantes autonomeadas. A “blasfêmia” nunca é de quem caga regra. “Que horror!” Neste caso, imediatamente se aponta o dedo. Mas também não seria “blasfêmia” falar em nome da Toda Poderosa? Afinal de contas, Ela não foi nem consultada a respeito da suposta ofensa.

“Não se pode falar Seu santo nome em vão.” Mas o que parece haver, mesmo, é a proibição das outras criaturas falarem. Neste caso, referência entre as mortais, as cagadoras-de-regra sempre podem, sua licença é absoluta. Personagens coadjuvantes, gostamos de pensar que elas estão “longe de nós”. A Criadora se esbalda com a autoindulgência de Suas criaturas. O problema nunca é delas. É sempre das outras criaturas. O que mais parece ser um reflexo de uma certa fixação escatológica: toda fiscal-de-bunda (alheia) caga regra compulsivamente. Suas gargalhadas se multiplicam. A Criadora-de-todas-as-coisas ri contente de não precisar criar tantas outras coisas: Suas criaturas acreditam que se bastam. São espontâneas e infinitamente criativas… no sentido bem-humorado da palavra. Elas se achamPerseguem umas às outras e, depois, terceirizam a responsabilidade: falam em nome Daquela que não se pode falar o nome em vão.

A infância das criaturas é repleta de imagens aterrorizantes e supostamente bondosas da Toda Poderosa. É tão contraditória como Suas próprias criaturas. Ela é a Criadora-de-todas-as-coisas. Por um lado, “é mãe”. Está em “todos os lugares”. Paira “acima de todas” as (Suas) criaturas. Está observando “tudo do alto”. Para muitas crianças, Ela é a “Mamãe do Céu”. Boa e amorosa, Ela “acolhe e cuida”.

Por outro lado, o problema é que as crianças também têm bunda e “fazem merda”. Precisam de outro tipo de cuidado. Por isso, as heroínas escatológicas estão sempre a postos. Nunca descansam. A vigília é constante. Segundo o julgamento das cagadoras-de-regra, toda criatura “necessita temer”. Desde criança, precisa aprender que “a bondade está reservada” apenas às “obedientes”, “disciplinadas”, “inseguras”, “subservientes”. E ninguém é correto por completo. Toda criatura erra. Logo, deve temer. “Mamãe do Céu está vendo tudo! Não adianta esconder!” Severa e implacável, Ela “reprova e castiga”.

A Criadora-de-todas-as-coisas ri do paradoxo: Suas criaturas recriam seus próprios medos e garantem que eles jamais tenham fim. Novamente sem consulta prévia, culpam a Criadora. Um dia, as criaturas vão morrer. Elas são finitas. Mas sua descendência terá medo, censurará a juventude, punirá as desviantes, oprimirá quem pensar diferente, e botará tudo na conta da Toda Poderosa, que, bem-humorada, continuará se divertindo com os bugs de Suas criaturas: sua perfeição está na própria imperfeição; não precisam de uma nova versão, pois se bastam. E Ela se escangalha de tanto rir.

É capaz de todas nós, criaturas vigilantes e autocomplacentes, lermos tudo isso sem nos sentirmos ofendidas. Feminina, “só poder ser, mesmo, uma personagem de ficção”. Nestes termos, não incomoda. Algumas criaturas desobedientes identificariam nisso um tipo conhecido de aversão: “uma forma de misoginia”. Outras, bem-comportadas, achariam que “ficção é, de fato, apenas uma palavra feminina”, e por isso “desprovida de ameaça”. Neste pequeno instante, sempre bem-humorada, Ela soluça quase sem folego de tanto gargalhar. Mãe é mãe.


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