O que falta, mesmo, é segurança
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Maicon morava na periferia da região metropolitana. Seus pais eram de União dos Palmares, interior de Alagoas, e começaram a namorar quando trabalhavam em um condomínio da zona sul carioca. O filho tinha dezessete anos e estava acabando o Ensino Médio. Trabalhava de dia vendendo equipamentos eletrônicos no centro da cidade e estudava à noite em um colégio perto de casa. Tinha vergonha da origem de seus pais.

Ele era antenado com as novidades do mercado de telecomunicação. Tinha orgulho de trabalhar com tecnologiareceber comissão e, no fim da semana, voltar para casa com mais dinheiro do que seus pais ganhavam em um mês de trabalho. Realmente entendia dos aparelhos que vendia. Curtia o que fazia. Maicon se dedicava aos estudos. Sonhava em ser engenheiro e morar em um bairro de bacanaMerecia vencer na vida. O que era dele, tinha conquistado com o próprio suor. Não dava bobeira. Juntava dinheiro e comprava tudo o que precisava. Usava sempre o último modelooriginal. Não tinha conversa. Era sempre do bom e do melhor. Quando não dava, bastava esperar e juntar uma grana. Ele sempre conseguia. Merecia.

E não estava sozinho. Seus amigos também curtiam, como todo mundo, ostentar as conquistas materiais. Deu trabalho para ter, não tem porque esconderÉ pra todo mundo ver. O problema é que nem todo mundo se empenha como Maicon. A cidade está cheia de vagabundo querendo se dar bem. E lugar de bandido é na valaA polícia tem que botar ordem na cidadeFalta segurança para o cidadão de bem, trabalhador.

Maicon estava encaminhado. Tinha acesso à educação e se dedicava. Tinha mérito. Era honesto e trabalhava com o que gostava. Podia bancar as coisas que desejava. Merecia ter o que havia conquistado. Com um futuro promissor, mais um tempo estaria formado em uma área de sucesso. Teria o que merecia. Mas tinha medo. A violência urbana era uma ameaça crescente. Realizado com suas aquisições, temia a vingança dos fracassadosO que falta neste país é um líder honesto, íntegro e comprometido com a segurançaque garanta a liberdade de empreender e a igualdade de oportunidade para todo mundo. Chega de bolsa issoauxilio aquilomamata pra preguiçoso se escorarTem que ter um cara sério pra tocar esse país pra frente.

Domingo – com dinheiro no bolso, boné original na cabeça, tênis importado no pé, camisa de grife, calça de marca, relógio original no pulso e smartphone recém-lançado no bolso – é dia de ostentação. É dia de juntar a galera pra dá um rolé no shopping. É dia de Maicon mostrar que tem grana e que também é bacana. Não precisa nem gastar muito. O importante é ser visto, é a gente se exibir pelos corredores.

A rapaziada vai junto pra garantirSabe como é que éa cidade tá perigosaÉ muita violênciaMalandro não tá dando mole na esquina, não. E a gente só precisa de segurança, porque o resto a gente garanteDinheiro a gente conquistaÉ com meritocracia que se constrói um país de verdadeO que falta, mesmo, é segurança.

Mas o que era diversão para a turma, foi visto como “ameaça” para os donos das lojas naquele fim de semana. Os seguranças interceptaram o grupo no terceiro corredor. O passeio acabou em humilhação, pancadaria, expulsão, detenção e muito corre-corre… dentro e fora do shopping. As autoridades foram chamadas. “Aquilo não foi visita. Os marginais invadiram o shopping e tocaram o maior terror. Os clientes ficaram muito assustados.”

Como seus amigos, Maicon queria comprar tudo o que acreditava merecer. Ele também compartilhava o medo da violência urbana do lado de fora do shopping. Como qualquer cliente, também temia ser assaltado e perder seus cobiçados bens. Acreditava que merecia se formar na faculdade como todo mundo e vencer na vida com todo o dinheiro que isso iria lhe render. Trabalhava e estudava. Tinha medo de ladrão como qualquer bacana daquele shopping. Defendia como todo mundo que bandido devia morrer, que o país precisa de segurança… que os verdadeiros empreendedores só precisam de liberdade.

Seu corpo foi encontrado, três dias depois, em um terreno baldio bem longe dali. Estava desfigurado. Havia marcas de sufocamento. Restaram as lembranças do sonho de segurança e de inclusão pelo consumo. Maicon não foi notícia nos jornais ou nas redes sociais. Quem ouviu falar do rolezinho continuava assustado com medo das tais “invasões”. Quem ficou sabendo da “bravura” dos seguranças pôde dormir tranquilo naquela noite. Os “clientes” estavam “a salvo”. A ordem foi restabelecida. “Aqui se faz, aqui se paga.” E algo precisava ser feito. Alguém precisava pagar. “O moleque mereceu.”


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