Que conversa é essa?
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José Carlos nasceu no interior e cresceu trabalhando com o pai na roça. Aos treze anos foi viver na cidade grande. Foi direto para a capital. Seu tio já morava lá a uns cinco anosFoi na frente pra ganhar a vidaTinha muito conflito naquelas bandas onde moravam. Seu pai morreu numa emboscada armada pelos capangas de um fazendeiro poderoso da região. Coisa de gente grande: uma briga por um pedaço de terra junto à casa em que o avô dele nasceu. Seu pai estava ligado ao sindicato rural e o sinhozinho de lá disse pra ele largar de mão esse negócio de política. Seu irmão estava com ele voltando pra casa quando sangraram os dois na estrada. Sua mãe e suas irmãs tiveram de ir morar com a vó em outro município. José Carlos foi mandado com o outro irmão para a casa do tio que se dispôs a cuidar deles. Não tinha clima para continuarem na fazenda. O pai morreu, ficamos sem a casaAí quase dispersou a famíliaVim morar aquinesse mar de concretocom esse monte de gente.

Ainda garoto, passava o dia de um lado para o outro entregando as marmitas que a mulher do tio fazia para vender. Só estudou até o quinto anoem uma das escolinhas que a prefeitura mantinha lá na zona rural. Quando foi para cidade, não tinha tempo pra escola. Já estava grande, tinha que ralar pra ajudar em casa. Com dezoito anos, foi trabalhar na construção civil. Começou carregando tijolosaco de arreiatudo o que precisasse. Dormia na obra. Toda sexta-feirasaía para gastar parte do dinheiro que ganhava.

O povo da cidade dizia que Zé Carlos “tinha sotaque”. Ele respondia que eram eles que ficavam falando que nem artista de tevê. Tratavam ele como matutoEu sou ZecaNão é Jeca. Doía ser visto com inferioridade. Mas rapaz… que conversa é essa? Trabalho que nem vocêA gente mora no mesmo buracoDesde quando alguém aqui é melhor que o outro? E Zé Carlos tocava a vida pra frenteA pessoa se encabula, mas é só não dar conversa pra bocó. No fundo doía. E ele seguia.

Aprendeu cedo que nesta vida é cada um por si. Mas na hora do aperto nunca estava sozinho. E nem podia estar. Se desse bobeira, vagabundo atropelava. E ele não bestava. Estava sempre junto dos seus. E os seus eram amigos, familiares, vizinhos. Eram muitos… que sempre chegavam juntosempre davam aquela força. Zé Carlos aprendeu a ser solidário, mesmo repetindo que, no final das contas, é cada um com o seu cada qual.

No dia-a-dia, Zeca compartilhava os mesmos perrengues que os vizinhos. E sonhava em superar tudovencer sozinho, e, longe dali, ser respeitado como Doutor José Carlos. A vida de Zeca era um fardo, mas se sentia protegido pela comunidade. O desejo de ser o Doutor José Carlos era só isso: um sonho secreto que representava a independência e a leveza que ele nunca teve. Zé Carlos era tudo isso e um bocado mais… era um conflito interno, a contradição que ele não queria ser, a vida que ele nunca quis ter. O sonho de ser um no mundo de todos. O singular em um universo coletivo. Sonhava em ser valorizado, mas era visto como o todo, não era reconhecido como uma parte. Para sua tristeza, quando ganhava destaque individual no meio do todo, entre iguais, muitas vezes era tido como menorpequeno. No limite, era sem ser. Nunca pôde ser o que desejava.

No fundo, queria acreditar que era o que ele havia construído sozinho, que era como qualquer outro, como qualquer pessoa admirada. E doía ser tratado como inferior, como filho sem paiimigrante fugido, trabalhador que não enriqueceu como sonhava. Nunca se meteu com política. Não gostava desse negócio de dizer que trabalhava sem trabalhar. Tinha vergonha do que os outros pensariam dele. Aprendeu a valorizar o que não era, o que pensava que os outros dariam importância. Queria a estima alheia por realizar algo incomum. Mas sempre era comum, uma pessoa como as outras, como seus vizinhos, que compartilhava porque sozinho não tinha recurso só era possível fazer o que fosse realizado por todos, o que era forçosamente comum a todos.

Sua vida foi como sua casa, construída como muitas outras da vizinhança: em sistema de mutirão, com o trabalho de todos. Os laços comunitários se fortaleceram, mas isto sempre foi visto como vulgarcomumdesprovido de valor. Como seus vizinhos, viveu a outra face da visão de mundo dos poderosos: a frustração de não ser um indivíduo de verdade, de ser uma parte amorfa em um todo igualmente comum.


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