O outro não pode ser diferente de mim
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Tânia precisa ser aceita. Não pode ser esquecida. Necessita da confirmação de que está no caminho certo, de que é como os outros. Neste momento ela se sente anestesiada. Seu torpor vem de uma sensação que parece ultrapassar a experiência imediata. Sua angústia diminuiu. O que era dor se transformou em realização. Tânia não está abandonada. Nesta busca, ela não está sozinha. Como ela, são centenas em pé, com a cabeça erguida e as mãos voltadas para o céu. O contato é direto, mas não conjunto. Cada um se realiza isoladamente. Todos se sentem tocados porque são especiais, mesmo que independentes uns dos outros. É a superação de si mesmos. Cada qual transcende os demais. Mas não funciona se estiverem distantes. O sentimento geral é o de precisarem estar reunidos no mesmo lugar. Não há dúvidaEste é o percurso que deve ser trilhadoNão existe outro.

Ela precisa acreditar. Há muitas estradas. Mas um só caminho. Agora que Tânia o encontrou, não irá arredar o pé da salvação. Está tranquila. Tem confiança no que foi revelado. Jamais se afastará da verdadeTudo tem uma razão de serSe existe, é porque tem um propósitoNada é temporário ou por acaso. Tânia sorri. Está segura de si. Não tem ninguém ao seu lado, mas não se sente sozinha. A angústia se foi. Tem controle da situação. Sempre soube o que queria, onde ia e o que seria na vida. A felicidade nem sempre compareceu ao encontro, mas as armadilhas fazem parte da caminhada. E ela sabe muito bem identificar as ameaças e vencer as tentações.

Na fila do supermercado, um velho conversa com um jovem. Diz que desde os quatorze anos não tem fé. Tânia passa por eles indignada. Pois devia acreditar!  “O que foi, minha senhora?”  Deixe eu passar! O senhor está me atrapalhando! O coração de Tânia dispara. Pensa com ela mesma:  eu não tenho que dá satisfação. Ela se angustia. A vida do outro lhe dói: não pode ser diferente de mim. Tânia muda de fila. Vai para outra bem distante. Sente o ar entrar fundo pelas narinas. Expira devagar. Pensa no que é correto: que é correta.

Ela não vive simplesmente momentos de iluminação, nem rompantes de sensatez. Nada é episódico. A virtude é um fruto raro, mas duradouro. E deve ser valorizadoVamos ser honestos, em Tânia, a lucidez é uma constante. Há a garantia de verdade. Sua atitude reflete a infalibilidade do pensamento. É tão óbvio, que ela nem pensa muito sobre issoFaça-me o favor. A certeza não faz visita. Ela é a dona da casa. Não confunda as coisas. Tânia é, não está. Ela sabe, tem convicçãoNão há dúvida. Tem firmeza na conduta e na disposição de corrigir os desvios alheios. Tânia não hesita: diz o que é para ser ditosempre que for preciso. Não deixa passar nada. Nunca dá bobeiraNinguém erra por acasoOs maus espíritos se infiltram nos descompromissados. A vigilância deve ser eterna: um compromisso moral. E Tânia tem um propósito nessa vida: reconduzir os corrompidos.

Está convencida de que só há um caminho… e ele não permite falha ou atalho. O desafio é estar sempre alerta: nunca desviar. Tânia já percorre a estrada da retidão. Agora, cabe a ela resguardar a conduta dos incautos. Os tolos, no final, vão sofrer durante toda a eternidade pela negligência espiritual e arrogância mundana. Tânia tem o dever de alertá-los. É sua obrigação mostrar-lhes a trajetória para a redenção. Não pode se omitir diante da irresponsabilidade alheia.

Os outros são diferentes. Se fossem parecidos conosco não seriam outros, seriam como nós. Não seriam eles, os outros. E nós não pensamos como eles, nem precisamos. Tânia acredita que não tem que pensar igual aos outros. Ela está certa. No fundo, vamos ser francos, faz sentido. E ela sabe, está sempre certa. Encontrou a verdade. Se fossem minimamente sensatoseles pensariam como ela. Se tivessem juízoconheceriam o caminho correto. Se aceitassem a conciliação dos espíritos diante dos princípios da fé, encontrariam a paz, seguiriam a mansidão dos puros  e não seriam diferentes. Tânia acredita. Está convictaVocê precisa reconhecer. Ela sabe o que diz: o outro não pode ser diferente de mim.

Tânia acredita viver com a serenidade dos fiéis. Mas sua ansiedade não desapareceu. Ela relaxa as mãos… os umbros… e respira. Ao mesmo tempo, mas muito lentamente… sua angústia volta a crescer. Seu sofrimento está no outro, na leveza do outro, na falha do outro, na falta do outro. Ela não percebe, mas vai explodir.


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