Para aliviar a tensão
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César é sensível. Age sob forte emoção… várias vezes antes de pensar. O que que cê tá falando, ô babaca? Mas, no fundo, “ele é um doce”. Sua mãe acha “fofo” seu “jeitinho carinhoso”. O “pimpolho é espontâneo: não dissimula”. Ele não gosta desta conversa de mãe e também não está aqui pra agradar. Não veio a passeio, ou a trabalho… mas pra brigar. Nunca se rende. Está sempre a postos. Vai encarar, cagão?

Ele resolve no braço. Realmente convence. Convence que é uma criatura que leva jeito para se relacionar com os outros… com outros como ele: resolvidos. César está resolvido a consertar a merda que a esquerda fez. Sua fixação escatológica não é religiosa, mas não deixa de estar ligada ao fim do mundo. Tem a ver com os intestinos do poder. Com a vontade de poder… de poder foder com esses bostas. São muitos desejos adiados, mas ele acha que dá conta. Seu vocabulário é rico em excrementos. Às vezes parecem figuras de linguagem, às vezes eventuais interjeições. O que importa é que essas coisas não param de sair de dentro dele. César não controla, mas reconhece que elas servem para aliviar a tensão.

César vive estressado. Não gosta de ser contrariado. É pra bater de frente? Ele não curte esse negócio de ser desafiado. Não gosta de babaca que se achaParte pra cimapra definir. Não leva desaforo para casa. Resolve na rua, lugar de homem, onde homem de bem anda de cabeça erguidaFedelho tem que abaixar o quengo.

Rua é pública, é masculina. Casa é lugar de mulher… pelo menos as que prestam. César entende de mulherDe todas: as de casa e as da ruaSe tá na rua, é pra se molhar. Ele diz que faz sucesso com a mulherada. Elas curtem um cara seguro. César fica puto com essa conversa de feminista-mal-comida, com esse papo de “insegurança masculina”. Ele sabe o que quer. Não tem dúvida de que é homem: um verdadeiro garanhãoturbinado de fábricapau-pra-toda-obra. Ele sabe do que gosta. Está de saco cheio de mulher que acha que sabe mais do que ele. César não tem medo de mulher.

A vida é dura. Não dá pra aliviar a barraA ditadura gayzista está na porta da casa da gente.Os esquerdopatas querem impor a viadagem delesAs feminazis acham que são machoEntraram numa de peitar. Querem impor como a gente deve sero que a gente deve fazerComeram cocôTão viajandoQuerem estragar com tudo? Então a gente vai destruir os córneos deles. Vai enfiar a porradapra dá um jeito nesse bando de arrombado. César está seguro de si. Há controvérsias. Mas ele não está nem aíPassa por cimaNão pode dar moleza pra essa gente.

César anda em grupo. Diz que como está, não dáHoje, tem moleque de rua tocando o terror. O homem de bem não tem mais direito a nada, não tem mais garantia de porra nenhuma. É a favela querendo tomar conta do asfalto. É o rabo abanando o cachorroFalta autoridade. Ele tem que mostrar quem manda. Enquanto as coisas não mudarem, a rapaziada tem que botar ordem na ruatem que levantar a autoestima da comunidadetem que bancar a própria segurança. O governo tá tentando, mas neguinho não tá deixandoTem que cortar as asas dessa cambada-de-pela-saco. Acabar com os privilégios da senzala. Eles agora acham que são genteArrebentaram com o paísArruinaram a economia. Deixaram o povo na merda. César acredita na intervenção de um herói: o bem acima do mal. A população está desamparada. O clima tá fervendoTem que partir pra dentro. É terra arrasada. Tem que botar abaixo. É começar tudo do zeroNão há salvação sem destruição. Para ele, a redenção virá das cinzas. Comunidade, país, povo, população: é tudo a mesma coisa. César tá dentro.

Tem que limpar a área. César suspira. Está tenso. Diz que não aguenta mais. Conta que é o cara do diálogogente boapaciente… mas está no limite. Fala que não é nenhum monstro e se esquiva da responsabilidade com as palavras. Argumenta que dizem por aí que tem-que-passar-mesmo-o-cerol, que basta-um-teco-bem-na-cabecinha… É o que dizem. Ele, não. César é do bemMas nem tudo a gente atura. É contra esse negócio de direitos humanos, que é troço-de-filha-da-puta, coisa de bandido defendendo assassino. César levanta a voz. Aí não dá! Com traficante não tem conversa. Como se fosse tudo santinho. Ele explode: quero ver quando estuprarem a tua filha! Direitos humanos, bandido, assassino, traficante, estuprador: é tudo a mesma coisa. César tá fora.

César não sabe o que são direitos, nem como foram conquistados. Ele aprendeu a negar a humanidade. Parece satisfeito com o narrador, seu interlocutor. César está desarmado. Ensaia sair do personagem. Momento de reflexão. Lê o que foi escrito. Vira o rosto e olha sério. Franze a testa e fecha a boca. Não gostou do texto. Respira bem fundo. Diz que vai rasgar essa porra, que vai resolver essa parada! Tá zoando com a minha cara? Decidido, vai acabar com…


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