Minha bandeira jamais será vermelha!
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Policarpo nascera na capital de Santa Catarina. Reconhecia-se culto: dominava o vernáculo lusitano, mas nunca demonstrou interesse em saber a origem do nome de sua cidade natal. Dizia que era contra o autoritarismo, que defendia a liberdade… a liberdade individual, o que sempre lhe pareceu um pleonasmo redundante.

Santa Catarina

Em 2015, morava em São Paulo. Trabalhava no centro financeiro da nação. Nunca ligou para política, ao menos até os últimos anos. Na internet, compartilhava tudo que recebia contra o governo. Algo tinha de ser feito. Estavam acabando com o país. Foi para a rua lutar contra a corrupção. Queimou bandeiras. Xingou os comunistas. Eram muitos. Nunca os viu pessoalmente, só de longe: nas redes sociais. Precisavam ser defenestrados do poder. Bradava na avenida: Minha bandeira jamais será vermelha! Não negava sua origem catarinense. Apenas tinha memória seletiva. Lembrava do sul para falar mal dos nordestinos.

Sua camisa era amarela com o brasão da CBF. Empresa privada, imune à corrupção, que é coisa do Estado. Policarpo defendia a livre iniciativa. Quem tem, merece. Merece porque trabalhou. Teve iniciativa. Venceu. Toda iniciativa deve ser livre. Ao menos a iniciativa dos verdadeiros empreendedores, que carregam esse país nas costas. É o fardo de todo patrão. É a sina de quem se empenha, batalha e vence. É a luta injustamente desvalorizada dos heróis de nossa pátria: os dedicados empresários, autênticos e modernos bandeirantes do progresso da naçãoabnegados e beneméritos da civilização.

Canada

Policarpo venceu na vida. Conquistou riqueza e conforto. Não foi tudo o que almejava, mas cresceu por merecimento. Aprendeu muitas palavras bonitas. Vexilologia seria mais um termo impactante se de fato ele prestasse atenção ao que falava. Mesmo neste caso, Policarpo dava a maior bandeira. Seu sonho de ascensão social independia de símbolos nacionais. O problema mesmo era a usurpação socialista. A cor nunca foi problema para ele até ameaçar seu furor cívico de ocasião. Sonhava em morar no Canadá. Era fascinado por aquela folhinha de boldo deles. Adorava brincar de bater continência para a bandeira dos States. Primeiro Mundo mesmo era Dinamarca e Noruega. Quando fosse realmente rico, seria banqueiro na Suíça. No dia em que se tornasse bilionário, transferir-se-ia para Mônaco. Viveria perto da nobreza, longe dos impostos. Repetia orgulhoso: Minha bandeira jamais será vermelha!

Suisse

Para ele, o verdadeiro Brasil é verde e amarelo. Verde são as matas, nossas florestas. Amarelo é o ouro, nossa riqueza. Verde e amarela, a república, nossa pátria. De Bragança e Habsburgo, ele nunca ouviu falar. O que isso tem a ver? É de comer ou de beber? Sempre espirituoso, brincava: um deve ser branco, o outro, tinto. Dizia preferir refrigerante: doce e gelado. Cai bem com qualquer alimento. Dedicado, aprendeu a harmonizar os elementos de uma boa refeição. Apreciava expressões pomposas. Ele não era pedante. Era um aprendiz.

Policarpo era um legítimo patriota. Amava as palavras, mas detestava literatura. De modo algum prestou atenção às poucas aulas de história do colégio. Jamais ouviu falar de Lima Barreto. Não conheceu Floriano Peixoto. Dizem que foi general. Para ele, deveria ter pulso firme, integridade moral e orgulho cívico: um autêntico civilizador.

Nunca se interessou pela luta dos trabalhadores assalariados. Isto é coisa de vagabundo, preguiçoso, encostado, aproveitador do trabalho alheio. Policarpo entendia trabalho como sinônimo de dedicação dos verdadeiros batalhadores: os patrões. Um dia ele também seria um grande patrão, dono de muitos bens, proprietário de muitas empresas. Especulava que um título nobiliárquico lhe cairia bem. Se vermelho era o sangue dos movimentos sociais, o dele precisava ser azul. Minha bandeira jamais será vermelha!

Tinha nojo do Estado. Tinha horror a impostos. Esbanjava no consumo de energia elétrica em sua casa no Rio. Detestava pagar pelo seu próprio desperdício. Reclamava todo mês. Também odiava a tarifa extra na sua conta de luz quando percebia uma bandeira vermelha. Só podia ser coisa de comunista… do Estado comunista. Logo ele, que merecia no máximo uma bandeirinha verde ou amarela. O boleto era pontual e impiedoso.

Nem nas férias, no litoral, ele estava livre da perseguição marxista. Ontem, intrépido e destemido, resolveu nadar em dia de ressaca. Na beira da praia, estava hasteada a bandeira de perigo. Não seria isto que o deteria. Forte, jovem e confiante, resolveu encarar o mar. Dezessete minutos depois, submergia pela terceira vezes sem fôlego. Morreu afogado a trezentos metros do posto salva-vidas, que, naquele momento, estava vazio porque não havia servidor suficiente. Seu corpo foi levado pelas ondas até a praia. Parou junto ao mastro da defesa civil. Estava frio e ventava. A bandeira tremulava dois metros acima do cadáver.


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