A garotada acha que pode tudo
Compartilhe nas redes sociais
  •  
  •  
  •  
  •  

Armandinho, de Alexandre Beck

Maria Inês tem medo do futuro. Para ela, a juventude está perdida. As coisas andam meio que de cabeça para baixo. A garotada acha que pode tudo, que pode ser qualquer coisa. As meninas estão se beijando no meio do corredor, na frente de todo mundo. Resolveram se abraçar e andar de mãos dadas em público. Só pode ser para afrontar os pais. Elas dizem que não querem ter filhos, que não querem ser mães, que “não serão como as suas mães”. Qual é o problema de ser mãe? Agora parece que isso diminui a mulher. Parece que ela deixa de ser o que ela é. Como se as jovens não reconhecessem os propósitos de Deus. Como se o mundo perdesse o sentido.

Os rapazes, mesmo adolescentes, resolveram passar batom e se maquiar. Dizem que não são nem meninos, nem meninas. Acham que são o que quiserem ser. Repetem que os mais velhos “não os respeitam”. Maria Inês fica indignada. Afirma que ser correto agora parece que virou coisa de velho. Reclama que os garotos confundem liberdade com pouca-vergonha. Na minha época, a gente respeitava os mais velhos. Hoje, os meus filhos perguntam se essa época não é a minha. Pensam que são sabidos com estas tiradas. Ela esclarece que quando fala minha época é para dizer para eles que quando tinha a idade deles ela era responsável… que tinha juízo. Sempre teve. Não saía por aí se esfregando nos outros. Sempre se deu ao respeito. Senão o povo ia ficar falando mal pela cidade. Maria Inês não gosta que falem mal dos outros. Cada um tem a sua vida. A gente tem que respeitar.

Seus pais já estão velhinhos e moram no interior. Não entendem o que passa na cabeça dessa molecada. Não dá para falar para eles o que os netos estão fazendo. Maria Inês pensa que os protege da juventude. Ela diz para os seus pais que os netos não têm juízo. E ri quando ouve deles que ela “também não tinha”. Como se fosse a mesma coisa. Veja só você. Ainda tenho que aguentar isso.

Maria Inês estudou só até a quarta série e foi morar na cidade com a irmã mais velha. Engravidou e teve de cuidar dos filhos. Começou a trabalhar cedo. Os estudos ficaram para trás. Sua filha cresceu e está na faculdade… mas não sabe o que quer da vida. Só quer curtir. Maria Inês dá um duro danado e a menina só quer saber de bar e dos amigos esquisitos dela.

Semana passada, Maria Inês recebeu um vídeo mostrando a verdade nas universidades. Era um monte de gente pelada e fumando maconha. Esta bagunça tem que acabar! Eles dizem que agora estão na faculdade, mas estudo que é bom, nada. É só jogando dinheiro fora. Maria Inês não quer a filha em um ambiente desses. Ela tem certeza que as professoras estão destruindo a mente das jovens. Sua filha só faz o que suas professoras lhe ensinam. A garota não ouve mais nem a própria mãe. Sua filha diz que é tudo “fake news”. Ela acha que só porque sua mãe não pôde frequentar a escola como ela, que eu tô por fora. Ela acha que eu sou boba. Mas eu me informo. Não preciso de faculdade para aprender besteira. Professora de verdade ensina o que é correto. Sua professora foi a própria vida. Maria Inês não precisou ser doutrinada por esses comunistas, gayzistas e defensores de bandido que ficam enchendo a cabeça de sua filha de coisa errada.

Maria Inês está assustada. Sua filha agora deu para querer tentar catequizar a mãe com umas ideias feministas. Não vai mais à igreja. Deixou o cabelo crescer todo desgrenhado. Nem se preocupa mais em alisá-lo. Não se depila. Botou uma argola no nariz. Parece bicho. Alargou a orelha. Está quase rasgando. Resolveu até colocar uma tatuagem. Nem parece minha filha. Maria Inês diz que explicou a ela que aquele desenho horroroso nunca mais vai sair… que tem uma moça na igreja que se arrependeu e vive com o braço escondido. Maria Inês está com medo de a filha ir para a macumba. Ela tem certeza que é coisa da faculdade, desses livros socialistas que as professoras dão para ela ler. Está tudo nos vídeos que recebe. Maria Inês diz que é sabida, que manja bem dessa coisa de rede social.

Seu filho acabou a universidade ano passado. É professor de arte. No terceiro ano contou que estava namorando um tal de Jorginho. Ela diz que já desconfiava. O filho era muito reservado. Era tímido, mas começou a se soltar quando entrou na faculdade. Ela sempre soube que esse negócio de arte era coisa de viado, mas o filho dizia que ia ser professor e que a mãe era “muito preconceituosa”. Ela nega. Sempre defendeu que cada um tem a sua vida. A gente tem que respeitar. O que a preocupa é a vida dos filhos… de todos os filhos… dos filhos de todos. Ela tem convicção de que estamos perdendo a guerra para o marxismo cultural. Maria Inês não é besta. Ela está conectada. Sabe tudo.


Compartilhe nas redes sociais
  •  
  •  
  •  
  •  

Leave your comment to Cancel Reply

Your email address will not be published.