TIROS EM COLUMBINE, TIROS EM SUZANO, AS INCÔMODAS E INQUIETANTES COINCIDÊNCIAS…
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Em princípios de 2002, os cinemas brasileiros exibiram o documentário “Tiros em Columbine” estrelado e dirigido pelo cineasta estadunidense Michael Moore. Nesta obra, Moore dissecou as causas por trás de um massacre ocorrido em uma escola de ensino médio de Columbine, em 20 de abril de 1999.

O cineasta jogou por terra todas as explicações fáceis sobre essa tragédia, tais como os filmes violentos, os jogos de videogame, as músicas de rock pesado, etc. Moore demonstrou como a violência nos Estados Unidos, muito maior que em todos os outros países de capitalismo desenvolvido se devia ao culto pelas armas de fogo, a facilidade com que se tinha acesso às mesmas, e também à cultura da intolerância, do ódio e da violência como forma de resolver os conflitos. O filme era constrangedor para grande parte da população estadunidense que há pouco elegera o republicano George Bush numa eleição recheada de denúncias de irregularidade que recusavam ver no ódio racial e social causas explicativas não só daquela tragédia, mas de vários outros casos de morte por arma de fogo naquele país, inclusive em várias outras cidades.

No momento em que escrevo este texto, o país inteiro tenta compreender o que teria levado dois adolescentes em Suzano, interior de São Paulo, a matarem oito pessoas, ferirem outras onze, e se matarem depois. Por que? Onde erramos? Quais as causas de tudo isso? São as perguntas que todos fazemos.

Tiros em Suzano.

No momento em que assisti ao documentário de Michael Moore em 2002, pensava sobre a doença da sociedade americana, incapaz de administrar o ódio e intolerância que produzia e forçada a conviver cotidianamente com tragédias do tipo. Naquele ano, não tinha a informação de nada parecido com isso em algum momento na história do Brasil.

Nesse momento posso dizer, aterrorizado, que a tragédia de Suzano já não é fato inédito. Em 7 de abril de 2011, Wellington Menezes de Oliveira, então com 23 anos, abriu fogo contra estudantes na escola Tasso da Silveira, no Bairro de Realengo, na cidade do Rio de Janeiro. Wellington, ex-aluno da escola pesquisava na internet sobre atentados terroristas e grupos religiosos fundamentalistas, e cometeu os assassinatos antes de cometer ele próprio suicídio em retaliação ao suposto bullying que teria sofrido na escola.

Em 5 de outubro de 2017, o vigilante Damião Soares dos Santos, de 50 anos, entrou na creche Gente Inocente, em Janaúba (MG) e ateou fogo a si mesmo e a dezenas de crianças, como saldo dessa tragédia morreram quatorze pessoas, entre elas três trabalhadoras da creche, o próprio Damião e mais onze crianças. O crime foi cometido no aniversário de três anos da morte do pai de Damião. O algoz cometeu as atrocidades sem nenhuma razão lógica. Nada além da confusão provocada pela solidão, isolamento e desassistência numa sociedade doente de valores.  A polícia encontrou na casa de Damião rascunhos com ideias desconexas e comentários sem nexo sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Ainda no mesmo mês de outubro de 2017, o adolescente João Pedro Calembo, então com 13 anos, de posse da arma de fogo de seu pai (que era da polícia) matou dois colegas da escola também para se vingar do bullying que sofria. Calembo era admirador de sites de armas e do então pré-candidato a presidente Jair Bolsonaro.

Agora em Suzano, dois jovens, também vítimas de bullying, também seguidores de sites de armas, apoiadores da figura de Bolsonaro, confusos e doentes de valores, disparam contra um parente próximo, funcionários da escola, outros jovens e contra eles mesmos.  Nem vale a pena comentar afirmações do tipo “isso não aconteceria se os professores e merendeiras estivessem armados” ou que isso é um problema a ser solucionado com a redução da maioridade penal, visto que coisas assim, só podem sair de cérebros tão doentes quanto dos dois adolescentes hoje definitivamente perdidos.

Precisamos todos nós, refletirmos sobre o tipo de ser humano que estamos produzindo com nossa cultura de ódio, de soluções fáceis de banalização da violência e da discriminação. Não encontraremos saída e sofreremos mais e mais tragédias enquanto gritarmos que “bandido bom” é “bandido morto”, e não ressocializado. Enquanto tivermos deputados ocupando as tribunas para se queixar que as escolas não podem ensinar valores, ou que precisam se militarizar quem sabe para formar gente com a qualidade do atual presidente e seus filhos que estudaram em escolas assim.

Não estaremos preparados para evitar que cidadãos tomados pelo ódio, loucura e falta de valores venham a matar mais gente nas escolas e fora delas enquanto tivermos um presidente que mais parece um moleque divulgando provocações e fake News pelas redes sociais e continue a tomar a educação não como solução, mas como inimigo interno a ser combatido. Enquanto esse mesmo presidente disser que o Brasil “gasta demais com educação” e as políticas para o setor forem crianças filmadas cantando o hino nacional por ordem do ministro, corte de verbas e cargos, Escola Sem Partido e uma muito mal explicada ameaça de “lava-jato na educação” para perseguir profissionais que não pensam como o presidente e seus ministros, só o ódio, a violência e a morte será nosso futuro.

Lembremos mais um vez de Michael Moore, do documentário Tiros em Columbine, ele escreveu na mesma época o livro Stupid White Man (Estúpido Homem Branco) em que critica o ódio da direita americana (a mesma idolatrada pela família Bolsonaro) e a suposta fraude nas eleições que haviam levado Bush ao poder. Incômodas coincidências…

No dia que escrevo este pequeno texto, completamos um ano do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Já não perguntamos mais quem matou Marielle e Anderson, pois eles foram presos há dois dias. Perguntamos quem mandou matar. Os assassinos são vizinhos de Bolsonaro, tem fotos com Bolsonaro, a filha de um deles namorou com a filha de Bolsonaro, adoram armas e votaram em Bolsonaro para presidente. Novamente incomodas coincidências…

Até quando?


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