OUTRA MINAS É POSSÍVEL E NECESSÁRIA.
Compartilhe nas redes sociais
  •  
  •  
  •  
  •  

Por: Dirlene Marques

Da localidade de Casa Branca, em Brumadinho, MG, estou acompanhando toda a extensão de mais um crime da mineração. Vi e vivi toda a violência. De imediato, ficamos imobilizadas/os pelo horror que significou este rompimento da barragem.
Estou com muita raiva e indignada. Estou com muita raiva da nossa impotência, dos noticiários e seus comentários, da pequenez da elite brasileira – do PSL, Novo, PMDB, PSDB, PT e de todos os partidos que até hoje têm ocupado o governo e cujo projeto de Brasil é transforma-lo em um grande mercado exportador, e no caso atual, de comodities.

Quando do crime da Samarco, ficamos estarrecidas, chocadas e indignadas quando o gov. Pimentel deu sua primeira entrevista do escritório da empresa e vendo nela uma vítima. De Zema, Bolsonaro e sua assessoria já eram esperados discursos pouco sensíveis com o social e de apoio a empresa, pois sempre defenderam uma maior liberalização da legislação para estimular os negócios e ampliar o lucro.

E como fico indignada de ver a imprensa repetindo milhares de vezes termos como “acidente” e/ou “tragédia”, até serem internalizados por toda a população. Estes não são termos aleatórios. Eles servem para construir o apoio e a solidariedade da população, buscando o seu envolvimento ao mesmo tempo que retira sua capacidade de analisar criticamente, de cobrar as responsabilidades e punição e exigir mudanças.
Tragédia é uma ação que vai suscitar terror e piedade e termina com acontecimento funesto. A exemplo da tragédia grega. Acidente é acontecimento casual, fortuito, imprevisto, onde as pessoas não podem ser responsabilizadas por algo imprevisível. Estes termos servem para justificar a atitude do Estado e da Empresa. Que até aceitam pagar alguma indenização, fazer algum ressarcimento aos atingidos, onde eles definem quem são e o valor, após infindáveis obstáculos e protelações. Conhecemos esta forma de atuação em todo o Brasil, onde o Estado e empresa se unem para garantir a continuidade da mesma lógica produtiva.
De onde vem tanto menosprezo com as vidas humanas, não humanas, destruindo os territórios, o ecossistema e bilhões de seres vivos, micro-organismos vegetais e animais, contaminando as águas, causando comoção e continuando impunes?
A frustração é também muito intensa com uma parte da militância que, indignada vai para as ruas e se limita a denunciar e o governo atual. Procura o institucional no sentido de melhorar a legislação, aprimorar o controle, denunciando a precariedade do sistema de regulação ambiental. Mas, não tem a memória histórica: de onde vem tudo isto? Vamos continuar aceitando esta produção predadora? Uma produção extrativista, que destrói os biomas e os ecossistemas, elimina as economias locais, o modo de ser e existir do território. Sua origem é decorrência de uma política econômica que tem nas mineradoras e no agronegócio sua base de sustentação. Se não entendermos isto, vamos fazer enormes lutas enquanto tudo já está sendo destruído ao redor, esperando quando ocorrerá o próximo crime e toda a comoção nacional.
Temos de iniciar esta discussão com toda a sociedade mas em especial, com as populações das cidades que vivem da mineração, para buscar alternativas.
A mais recente onda da revolução tecnológica significou para o Brasil, a partir dos anos 90, a migração da acumulação das fábricas para as transações financeiras e a produção de comodities. Dois setores com lucros altíssimos: o setor bancário, e a mineração e o agronegócio. A primeira é uma involução, desviando o investimento da produção e construindo uma dívida eterna; o último, uma regressão, trazendo o Brasil de volta aos ciclos anteriores de dependência de produtos primários para o crescimento.
E um modelo que vai ser implantado no mundo subdesenvolvido, sob a coordenação do então chamado “Consenso de Washington”. Este programa propunha profundas mudanças nas economias dos paises que implicava na abertura comercial, desregulação dos mercados internos, privatização das estatais, controle dos trabalhadores e a redução do setor público as funções onde a iniciativa privada não tivesse interesse, como ecologia, meio ambiente e as funções clássicas do estado. Neste programa, a retomada do desenvolvimento se daria via exportações, onde cada país entraria com aquilo que tivesse mais “vantagens comparativas”. O Brasil, com abundância de recursos naturais e de mão de obra, passa a ser um exportador de minérios, agronegócio, madeira, petróleo bruto. Modelo concentrador de renda, destruidor do meio ambiente, dependente do crescimento da economia mundial. No Brasil inicia com Collor, implantado com FHC e consolidado e aprofundado nos governos Lula e Dilma.
O Estado tem de ser forte para garantir a abertura comercial, as isenções e estímulos fiscais, a retirada de direitos dos trabalhadores, flexibilização das leis ambientais e redução do controle ambiental, para que o território possa ser explorado a exaustão. A destruição e exaustão de nosso território para a exploração do agronegocio, minério, madeira e petróleo bruto têm garantido de um lado a lucratividade fantástica das grandes empresa. E de outro, cria uma massa enorme dos novos miseráveis, os impactados, que vão ser contido com políticas sociais, como o Bolsa Família. É uma lógica perversa. Retira direitos, reduz salários. Retira o meio de vida das populações tradicionais e as incorporam na vida urbana com o Bolsa Família. As empresas destroem a natureza, poluem, expulsam comunidades inteiras e financiam projetos ecológicos, culturais, de formação. Obvio, com recursos que deixam de recolher para os cofres públicos.
Isto não foi feito de um dia para outro. Foi necessário ganhar corações e mentes do povo brasileiro. As mineradoras fazem isto com perfeição. Chegam na cidade, no estado, no país, investem no poder executivo, no poder legislativo, financiando as campanhas para eleger seus porta vozes, seus defensores. Financiam as mídias. Nas cidades, estimulam o poder público a não investir na economia local. A cidade passa a depender da empresa. Assim, quando acontece um crime como o da Vale/BHP em Mariana e agora em Brumadinho, a própria população se levanta para defender a mineradora pelos empregos que ela gera, pela circulação de recursos na cidade e por não encontrar outra alternativa.
As empresas controlam o Estado elegendo diretamente representantes ou indiretamente, com o financiamento de campanha e, como contrapartida, recebem terrenos, infraestrutura, isenções fiscais. A média salarial se reduz ao longo do tempo com a máxima atual: se quer trabalho, não tem direitos. Se tiver direitos não tem emprego. Precariza-se o trabalho, intensifica a terceirização. Aumentam a poluição, a contaminação das águas, a eliminação de rios e as doenças. Assim, nosso povo vai sendo morto lentamente. E têm os grandes instantes, quando esta situação explode em crimes como os atuais.

Em Minas os exemplos se ampliam e se acumulam, especialmente a partir dos anos 2000 (Jornal O Tempo, de 28/01/2019):
1986 – Itabirito – 7 mortos
1997 – Rio Acima –
2001 – Macacos – 5 mortos
2003 – Cataguases –
2007 – Miraí
2014 – Itabirito – 3 mortos
2015 – Mariana – 19 mortos (e um aborto)
2019 – Brumadinho – centenas de mortos.
A lama tóxica toma conta dos rios, dos ribeirinhos, das cidades. De Minas.
É possível outra alternativa?
Sou economista e saí recentemente de uma campanha para o governo estadual. Nosso programa procurava romper com esta lógica atual. Trabalhamos um modelo de desenvolvimento local e comunitário visando o cuidado do bem comum, pensando a sociedade e não o lucro. Uma mudança radical de perspectiva, que muda a produção, a vida social e cultural.
Os governos de Minas têm subsidiado e estimulado o investimento nas mineradoras e no agronegócio. Na nossa proposta, as grandes empresas extrativistas – que destroem deixando só os buracos -, e o agronegócio – que degrada, mata e devasta os territórios-, continuariam a produzir por sua conta e risco, sem as “benesses” do estado de isenções e estímulos fiscais. Não são eles que tanto falam contra as benesses do Estado?
Mudaria a lógica dos investimentos. Criaria um complexo produtivo local, com o governo tendo o papel de estimular e subsidiar a criação de redes para produção e venda da agroecologia, próxima aos centros urbanos, com melhor qualidade, menos perdas, melhorando a vida dos consumidores e produtores. Investimento na reciclagem e no aproveitamento dos minérios já extraídos, para fazer face às necessidades locais e do país. Nossas montanhas, nossa história e cultura são riquíssimas, dando espaço para uma intensificação do turismo. Um conjunto de alternativas que se entrelaçam, gerando empregos, com melhor distribuição de renda.
Seria um investimento no que temos de melhor: a diversidade social com seu rico conhecimento, abandonando a ditadura do mercado e das grandes corporações.
Meu sonho é deixar de “enxugar gelo”. Minas tem as mineradoras e o agronegócio em todo o seu território. Poluem, adoecem, destroem, degradam. E, mesmo se aprimorarem a tecnologia das barragens, mantida a lógica do modelo econômico centrado na exportação de comodities, a destruição ambiental e todas as suas consequências, permanecem.
O rompimento dessas barragens é o alerta que denuncia este modelo de subdesenvolvimento, que destrói nossa população tradicional, que não investe nos nossos conhecimentos sobre o aproveitamento dos recursos naturais nem na capacitação científica e tecnológica, e precisa exaurir a natureza.
Precisamos pensar uma outra sociedade, iniciando agora a sua construção


Compartilhe nas redes sociais
  •  
  •  
  •  
  •  

Leave a Reply

Your email address will not be published.