É errado mandar Bolsonaro Tomar no Cú?
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No Brasil, os festejos de carnaval sempre deram ensejo a protestos políticos. Existem passagens marcantes, como o adereço em forma de Cristo Redentor da Beija Flor em 1984 e censurado por uma liminar na última hora. O carnavalesco Joãozinho Trinta levou a estátua coberta por uma lona preta para a avenida com uma enorme faixa pendurada em seu pescoço onde se podia ler: “mesmo proibido olhai por nós”. Quem não se lembrará do samba da vila Isabel em 1988, ou da Tuiuti no ano passado? Ou mesmo dos dois carnavais de 1912, pois nesse ano o presidente militar Hermes da Fonseca adiou o carnaval de fevereiro para abril, no que foi solene e alegremente ignorado pela peça população que foi às ruas e cantou:

“Com a morte do Barão

Tivemos dois Carnavá

Ai, que bom! Ai, que gostoso!

Se morresse o Marechá!”

No carnaval passado virou diversão ver a cara sem graça dos jornalistas da Globo fazendo cobertura dos blocos e tendo que transmitir sem querer a massa gritando em festa: “Fora Temer”. Neste ano não podia ser diferente, foram muitas as marchinhas super criativas ironizando nosso presidente, seu jeito, seu significado e até suas limitações intelectuais, e muitas efetivamente estão fazendo sucesso, com destaque para “doutor, não me engano, o Bolsonaro é miliciano”, cantada em vários blocos de carnaval. Mas o grande grito de guerra desse carnaval, que se mostrou espontâneo e incontrolável, sem dúvida é: “ Ei, Bolsonaro, vai tomar no cú”!, que se transformou rapidamente na hashtag #EiBolsonaroVaiTomarNoCu, que ocupa há dias os Trending Topics no Twitter e é dos assuntos mais debatidos no momento.

Para quem luta contra Bolsonaro, mas também luta contra o machismo, a intolerância e a homofobia, contudo, não é coisa que se faz com muita convicção, mandar alguém “tomar no cú”! A palavra “cú”, no português de Portugal é sinônimo tanto de ânus, como de traseiro ou bunda, ou seja, o conjunto formado por nádegas e ânus, dependendo da maneira do contexto com que é utilizada, mas não tem a acepção pejorativa que tem no Brasil. A expressão em questão: “vai tomar no cú”, é uma das formas de agressão verbal mais antigas e mais fortes no Brasil, em todos os estados da federação, e remete à valoração negativa da penetração anal, é uma expressão carregada de homofobia. Daí a contradição, não gostamos de Bolsonaro, mas ao manda-lo “tomar no cú”, não estaremos em alguma medida reafirmando o preconceito que ele mesmo tanto faz para consolidar e que é uma das razões da nossa luta contra ele?

Podemos num primeiro momento concordar que essa expressão não é a melhor forma de protesto político, mas a primeira coisa a observar é que constituiu num movimento incontrolável, não se sabe quem foi o primeiro que puxou, “Ei Bolsonaro, vai tomar no…”, no que foi acompanhado pelos demais, quem foi o primeiro ou a primeira a gravar e colocar no Twitter e do porque essa expressão de protesto viralizou mais que qualquer outra.

Uma primeira explicação seja a de que, por ser uma expressão para o bem ou para mal consagrada no falar popular, foi absorvida com muito mais facilidade pela massa em festa. Outra coisa é o comportamento em multidão, com frequência as pessoas tendem a se sentir mais à vontade em exprimir uma expressão desta no meio de uma multidão, que individualmente. Depois que esse protesto viralizou, é como se a expressão deixasse de significar o que sempre significou e assumisse um novo simbolismo, uma negação, a primeira e mais vivida expressão de uma rejeição massiva ao governo Bolsonaro, seu significado e seu projeto.

A ascensão de Bolsonaro ao poder se fez como numa onda, uma enorme pulsão de emotividade e irracionalidade alimentada por fake News que davam notícia do famigerado “Kit Gay”, da “Mamadeira de Piroca” entre outros absurdos, somados ao sentimento de solidariedade provocado por um atentado contra a sua vida, o mesmo atentado que hoje é amplamente questionado com provas e argumentos mas que misteriosamente não teve ainda qualquer repercussão nos meios de comunicação.

Poderia se objetar que a multidão que hoje de uma maneira alegre manda Bolsonaro tomar no c*, nada mais fazem que pôr em prática o próprio desejo do presidente em combater o politicamente correto, devolvendo ao mesmo toda a homofobia que ele próprio tanto divulga e defende. Haverão também aqueles que, citando Freud, dirão que Bolsonaro, seus filhos e muitos dos seus seguidores (que inclusive dizem nesse exato momento “bolsoanaroTMJ”) seriam muito mais felizes se deixassem de lado essa homofobia e permitissem fluir de si todo o amor que têm represados atrás desses armários de ódio.

Esse carnaval vai passar, esse governo Bolsonaro também vai passar um dia (quem sabem até antes do que se imaginava). A homofobia, o ódio e o preconceito serão vencidos com mais dificuldade, e mais a longo prazo. A hashtag #EiBolsonaroVaiTomarNoCu, assim como sua parceira #EiBolsominionVaiTomarTambem, expressão nada mais o movimento de refluxo da onda reacionária que levou a família ao poder. Como se subitamente o empuxo da onda despisse a família Bolsonaro de todos os caracteres falsos e todos pudessem vê-los como os seres humanos pequenos e medíocres que são.

Nesse sentido, esse processo é progressivo, e tem uma significação positiva para a conjuntura política. O presidente já está ensaiando a reação, no primeiro dia de carnaval baixou a MP 873 que constitui um duro ataque aos sindicatos e à livre organização da sociedade civil, já avisou que depois do carnaval vai ter “Lava-Jato na Educação”. Bolsonaro quer cair lutando, ou pelo menos esperneando.

Por todo o exposto, não vemos razão para não saldar os foliões em seu irreverente e massivo protesto. Que amanhã possamos todos continuar juntos, com alegria e otimismo para derrotar a Reforma da Previdência, os autoritarismos e todas as formas de retrocesso de Bolsonaro e seus asseclas. Assim caminharemos para uma sociedade onde ninguém mais mande outro tomar no c*.


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