Dom Quixote às avessas ou o Rei nu?
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Reflexões sobre os primeiros momentos do governo Bolsonaro (parte I)

Que utopia obscura traduz o mundo de Bolsonaro?

Passei alguns dias em busca da melhor imagem que pudesse representar o nosso presidente em seu governo. Essa busca me custou um pouco mais de energia do que imaginava. O primeiro em que pensei foi o personagem “Mumm Rá”, da série de animação dos “Thundercats”. À primeira vista me pareceu perfeito, cafona, fora de seu tempo, personagem do mal, até as feições faciais me faziam lembrar de nosso amado coiso. Mas Mumm Rá era muito sábio (qualidade ausente no excelentíssimo) e ainda tinha o inconveniente daquela história de vida eterna. Não achei auspicioso, desejo a Bozo uma história curta na presidência da república e ao final julguei melhor evitar qualquer coisa que associasse o adjetivo “eterno” ao nosso governo novinho em folha. Em seguida pensei no Bozo, o palhaço, mas já está batida demais essa imagem. Pensei no cavalo Bucéfalo de Alexandre Grande, mas achei desrespeitoso com Alexandre, afinal, não existe ninguém tão talentoso conduzindo o nosso tinhoso. Passei pela Hidra, por dinossauro, Anteu (o gigante de um olho só derrotado por Hércules) entre tantos nomes. Já estava para desistir quando me veio a cabeça a imagem de Dom Quixote.

No original o personagem Alonso Quijano, decepcionado com o mundo em que vivia e admirador e entusiasta das narrativas medievais, decide se tornar cavaleiro andante. Adota o nome de Dom Quixote. Montado em seu alazão Roncinante e seguido por seu fiel escudeiro Sancho Mourão Pança, ganha o mundo no encalço de malfeitores, monstros e gigantes. O problema é que gigantes não existiam mais (se é que existiram antes) e o mesmo se aplica aos monstros. Os malfeitores, por outro lado, demonizados por Quixote em sua mente senil, eram simplesmente o que havia de mais evoluído e essencial naquele mundo.

Claro está, que toda analogia é imperfeita. Dom Quixote era um idealista fora da realidade e mesmo da racionalidade. Em seu mundo ninguém o levava a sério, em nosso mundo Bolsonaro foi votado por milhões, que se não confundiam moinhos de vento com gigantes, acreditaram em Kit Gay, conspirações satanistas e mamadeira de bico de pênis. Dom Quixote era uma excrecência ridicularizada em seu tempo, no nosso, Bolsonaro é chamado de “mito”, “honesto” e “líder”. Dom Quixote era um sonhador solitário em seu mundo, no nosso, Bolsonaro mobiliza um exército de Dons Quixotes, empenhados e resolutos em tornar realidade uma visão de mundo compartilhada. Mas do que afinal se trata esse mundo ideal dos quixotescos bolsonaristas?

O primeiro traço marcante desse mundo que se pretende reconstruir, é a desigualdade. Sem haver um lugar certo por onde começar, parece ser este o ponto fulcral. A defesa da desigualdade, da colocação dos seres humanos em lugares pré-determinados, aos quais deveriam se submeter pelo bem de todos, foi a propósito, um dos pontos centrais da reação conservadora à Revolução Francesa. O filósofo Edmund Burke (certamente Bolsonaro nunca ouviu falar) lamentava os conceitos de igualdade jurídica, de substância e de direitos. Odiava pensar que gente simples e ignorante pudesse estar em presença dos seus chefes naturais sem ao menos se curvar. A desigualdade, pensava Burke, era uma decorrência natural da diferença entre pessoas superiores que deveriam estar em posição de status correspondente à sua maior importância em relação às inferiores, às “gentinhas”. Por isso, a desigualdade deveria não apenas ser mantida e defendida, mas também seletivamente produzida. O filósofo e pensador italiano Norberto Bobbio em uma das mais bem-sucedidas tentativas de definição das referências políticas “esquerda” e “direita”, utilizou exatamente esse diapasão: a defesa da mais ampla desigualdade é característica dos partidos e movimentos de direita, e a progressiva igualdade, a defesa da esquerda. Quanto mais radical a defesa da igualdade ou do seu contrário, as referências caminham para o seu extremo de esquerda ou direita. Essa reflexão nos ajuda ainda a estabelecer que o mundo de Bolsonaro não é só de direita, mas de extrema direita, e como tal tem referências conceituais que negam os fundamentos do liberalismo e da Revolução Francesa, aproximando-se perigosamente de conceitos medievais. Não por acaso Ernesto Araújo (seu nome para as relações exteriores) defende abertamente os valores medievais e fala até mesmo em terra plana.

Desta defesa extrema da desigualdade, derivam outras características marcantes de sua visão quixotesca. Um ponto essencial é sua noção de hierarquia, e isso é obviamente uma decorrência lógica e natural da desigualdade. Os trabalhadores devem se submeter aos seus chefes, afinal, os pobres dependem dos ricos, que são ricos simplesmente por serem inatamente superiores. O povo deve obedecer ao seu governo da mesma forma que soldados têm de obedecer aos oficiais. As instituições da sociedade civil devem também se submeter ao poder central, inclusive a imprensa, que só deve elogiar o poder e promover sua visão de mundo. A massa deve ser educada para respeitar a autoridade. O nacionalismo o quanto mais ufano deve ser estimulado. As crianças devem cantar o hino nacional, acreditar que o “sol da liberdade em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria”. É preciso decorar, mas jamais relativizar isso falando da escravidão que existiria ainda por 68 anos depois da independência, afinal, o trabalho compulsório e o comércio de carne humana foi necessário, e nenhum de nós estava vivo naquele tempo. Nem tampouco a escravidão deve servir de diapasão explicativo para nada, segundo Sancho Pança, nosso atraso é resultado não da persistência de relações políticas e sociais arcaicas, mas da nossa descendência genética de índios (preguiçosos) e negros (malandros). Os “mitos” nacionais devem ser amados e não pensados. A educação jamais pode dar ensejo a um pensar social que mesmo remotamente aviste como possível e desejável a transformação das relações de poder. A visão estatizante deve ser estimulada e encorajada. A continuidade deve predominar em detrimento da mudança. As pessoas devem acreditar que o mundo é justo da maneira que é e tendo a religião como referência fundamental. Qualquer explicação em contrário é “doutrinação”. No mundo de Bolsonaro, a doutrina das três ordens, segundo a qual uma parte da humanidade governa, uma reza e educa o povo, e outra (a massa) trabalha e obedece não é uma coisa do passado, é quase uma obviedade. O estado laico é que não se encaixa muito bem.

American Way of life

E dentro dessa visão hierárquica de mundo emerge sua defesa de família como unidade fundamental. Mas não a família calcada no afeto e sim na tradição. A defesa intransigente do patriarcado e da heteronormatividade. Não importa o quanto os censos do IBGE atestem que o arranjo familiar dominante sejam as casas chefiadas por mulheres. Bolsonaro e seu Sancho Pança vão afirmar o contrário, inclusive afirmar que grande parte da criminalidade é resultado de crianças educadas por mães e avós. O homem tem um lugar na sociedade, a mulher tem o seu de submissa, mãe, recatada e do lar e ponto final. Defender isso é defender o que é natural e portanto, não-ideológico. Insinuar o contrário é “Ideologia de Gênero”. As orientações sociais fora do padrão têm de ser reprimidas, e se possível, extintas: “as minorias têm de se adequar ou desaparecer”.

O trato extremo com os resistentes, é outra característica do mundo de Bolsonaro. A força, a autoridade e a violência são instituições cultuadas por nossos Quixotes. Como desdobramentos óbvios das diferenças naturais entre as pessoas, existem os “de bem” e os “não de bem”. No primeiro caso, pode estar a orientação sexual, nesse caso, nas palavras de nosso Quixote, “é só dar umas porradas que o sujeito aprende a virar homem”. Se for o caso de um batedor de carteira, ainda mais se for pobre e negro “marcas visíveis da inferioridade e da malandragem” na visão quixotesca às avessas, basta matar porque não fará falta. Daí a defesa insistente no “excludente de ilicitude” nas execuções da polícia militar. Intuímos que na defesa do “bandido bom é bandido morto”, estão excluídos os funcionários fantasmas e os nomeados para cargo de ministro, mas isso é assunto para outro texto. O fundamental é que o poder político, para dar conta de sua missão, precisa ser forte e não pode ser contrastado, daí seu projeto de “acabar com todo o ativismo do Brasil”. Bolsonaro se utiliza o tempo do todo as referências da ditadura militar que substituíram os conceitos de capitalismo por “democracia” e “liberdade” e socialismo por “ditadura”, “totalitarismo”, “autoritarismo”, etc. É isso o que lhe permite dizer que não houve ditadura militar no Brasil, ou que vivemos treze anos de ditadura comunista com os governos do PT e de não ver nenhuma incompatibilidade que a democracia mate, censure, torture, etc. Porque parte de referências distorcidas, chega a conclusões distorcidas.

Importa dizer que para dar certo, para colocar em execução seu mundo, o governo do Dom Quixote e Sancho Pança precisa de inimigos, precisa procurar a quem perseguir, e precisa disso o tempo todo. Precisa tratar mal os jornalistas, porque precisa ser vingativo com quem não o apoia incondicionalmente. Precisa demitir todos que não votaram nele e/ou que não pensem como ele da administração pública (por enquanto só é possível fazer isso com os não estáveis). Precisa anunciar continuamente que vai acabar com o entulho comunista e/ou o Marxismo Cultural (Hitller nos anos 1920 e 30 tinha uma formulação sutilmente diferente “bolchevismo cultural”, será uma diferença semântica ou de conteúdo?). Precisa dizer que vai perseguir os profissionais da educação que não coadunam com a visão exposta aqui, ou seja, “os comunistas”, “ateus”, “satanistas” “viados” e “doutrinadores”. Todos aqueles que ensinam às crianças de sete anos o que é “boquete” e que as estimulam a ter relações homossexuais. Todos os que defendem o aborto, e claro está que só fazem isso porque querem acabar com a família. E o mais interessante de tudo é que não precisam apresentar nenhuma prova de que tais coisas acontecem uma só vez em alguma escola brasileira. A produção do inimigo interno, é essencial ao seu mundo, e o armamento massivo é seu parque de diversões, com assassinatos aos milhões de quem em seu olhar, não merece viver.

As primeiras medidas do novo governo vão nessa direção. O artigo 5º da MP 870, de 2/01/2019, estabelece que caberá à secretaria de governo (chefiada por um general que reclama do “preconceito à tortura nas escolas”): “supervisionar, coordenar, monitorar e acompanhar as atividades e as ações dos organismos internacionais e das organizações não governamentais no território nacional”. As políticas do meio ambiente, as prerrogativas de demarcação das terras quilombolas e indígenas, a reforma agrária foram para o ministério da agricultura sob a intervenção direta de Nabhan Garcia, já envolvido em denúncias de grilagem de terras indígenas. O Ministério dos Direitos Humanos, passa a se chamar Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos. Esse mesmo ministério ficará com parte das prerrogativas da FUNAI, notadamente dos “direitos dos índios”, assim como das indenizações e processos relativos à ditadura militar. Os LGBTs foram retirados dos objetivos da assistência dos direitos humanos. E esse ministério foi entregue a uma pastora que acha que lugar de mulher é em casa cuidando dos filhos e que a igreja tem que governar o país. No Ministério da Educação a SECADI (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão) foi extinta e no seu lugar foi criada uma secretaria de alfabetização, dentro do objetivo de matar qualquer medida de inclusão e diversidade. O Ministro da Educação fala em Deus, defende abertamente o criacionismo, o golpe militar, e fala em perseguir e fazer Deus sabe o quê, com os “professores comunistas”.

Por tudo isso, nosso presidente é uma espécie de Dom Quixote; “Bom Sonaro” talvez fosse seu nome de cavaleiro, juramentado na igreja de um tal de Malafaia, mas um Quixote às avessas, ansioso não a retornar ao que se tem com mais nobre de um passado imaginário, mas quem sabe a um mundo descrito como ideal por um censor da santa inquisição a seus seviciados. Mas esse texto não acaba aqui, para dar um descanso aos olhos cansados, o dividirei um duas partes. Você poderá ler a segunda parte, onde avançamos nas condições de nosso cavaleiro e seu fiel escudeiro em realizar seu projeto de mundo, na correlação de forças políticas e para isso utilizaremos de outra fábula universal: a Roupa nova do Imperador, de Hans Christian Andersen.

link para a segunda parte:


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