Dom Quixote às avessas ou o Rei nu?
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Reflexões sobre os primeiros momentos do governo Bolsonaro. (Parte II)

Na primeira parte desse texto, desenvolvemos a noção de nosso amado presidente como um Dom Quixote às avessas[1]. Nessa continuação, cumpre questionar primeiramente: conseguirá Bolsonaro tornar o Brasil à imagem e semelhança do mundo que tem em seus sonhos? E a resposta me parece clara: não! O mundo de Bolsonaro, tal como de Dom quixote, é irrealizável. Jamais existiu, e não existirá. Os que sabem não esquecerão, os que pensam não se deixarão seguir por pastores que exorcizam publicamente “entidades demoníacas de esquerda” por mais influência que tenham esses homens “de Deus”. As mulheres não se resignarão ao papel desejado por Bolsonaro e pela ministra das mulheres (que se considera uma exceção), os gays não deixarão de ser o que são e nem de se amarem intensamente simplesmente porque Bolsonaro e Mourão sejam infelizes e não amem também (Freud explica).

A questão é que ele está no poder, o que esperar? Esse é um ponto que pretendo desenvolver brevemente neste texto e retomar oportunamente. Alguns companheiros de luta estão sinceramente assustados com o poder de Bolsonaro. Todas as suas ações são lidas como meticulosamente calculadas, como se nosso Bozo ou alguém por trás dele fosse uma espécie de gênio do mal e da manipulação. Que seus anúncios atabalhoados seguidos não raros de recuos são movimentos diversionistas para desmoralizar a grande imprensa e manter coesos seus seguidores. Que tem apoio dos militares, do Trump, sei lá mais de quem, que é um inimigo poderosíssimo, e segue-se nessa linha de um falso realismo extremamente desanimante e aterrador. Ao tentar dar uma primeira resposta a essas questões, me vem à cabeça uma outra obra literária, dessa vez de Hans Christian Andersen, chamada de A Roupa Nova do Imperador.

Segundo essa fábula, um imperador encomendou de um charlatão uma roupa mágica, que só os sábios podiam ver. Mas a roupa não existia e por isso não podia ser visto. Multidões de idiotas e puxa-sacos rodeavam o imperador elogiando os atributos do traje especial, sem coragem de dizer que nada viam. Só um menino teve coragem de dizer que o rei estava nu.

Essa me parece ser a melhor analogia do governo Bolsonaro. O coiso não chegou ao poder por seus méritos intelectuais, nem por sua liderança. Em 28 anos como parlamentar, apenas dois projetos de lei irrelevantes. Tentou ser presidente da câmara e só teve quatro votos. Bolsonaro chegou ao poder por uma infeliz conjunção de elementos, quase todos fora de sua capacidade de controle. Em primeiro lugar, ele se estabeleceu como figura nacional por seu jeito irreverente e suas posições extremas como uma espécie de palhaço de auditório. Era conhecido, mas pouco influente.

Quando veio o golpe em 2016, a nova composição no poder formada pelo PMDB, DEM, PSDB, PP, etc, pagou caro politicamente com o fiasco do governo Temer. Bolsonaro foi poupado dessa execração não porque fosse diferente, mas simplesmente por não teve espaço nesse governo. Quando a operação Lavajato chegou a todos os principais partidos, Bolsonaro ficou fora apenas porque não era importante no jogo de poder, e não porque fosse diferente daquilo[2]. A vitória eleitoral de Bolsonaro foi precedida assim pela derrota da direita tradicional, com vínculos sólidos e de longa data com o capital. E ele saiu ileso desse processo exatamente por sua irrelevância. A falência das representações de direita foi o fato primeiro, o mais fundamental e sem o qual a candidatura de Bolsonaro nada mais seria que a repetição do “meu nome é Eneas”!

Como resultado da perda de referências, Bolsonaro conseguiu se manter como candidato viável. O afastamento de Lula das eleições o beneficiou diretamente, mas Lula não foi retirado do páreo para favorecer sua candidatura, e sim a de seus concorrentes (Alckmin, Meirelles, Amoedo, etc). Se alguém soubesse antecipadamente do resultado da fatura (porque nunca se sabe o futuro, para o bem ou para o mal), talvez o afastamento de Lula do pleito presidencial nem tivesse todo esse consenso nas hostes dominantes. O atentado contra Bolsonaro, que lhe permitiu ocupar um espaço diário no horário nobre de TV, compensando o baixíssimo tempo de TV e contribuindo para esvaziar o debate político também foi importante. Nessa eleição, ninguém percebeu que Bolsonaro se propôs a continuar Temer um pouco pior que o próprio vampiroso. Que se propôs a governar para os ricos, aumentar a desigualdade e provocar dor e sofrimento. Jamais, em qualquer parte do mundo um candidato com as propostas de Bozo ganharia a eleição. Somente num cenário de enorme crise política, um salvador da pátria assim teria alguma chance. Foi a crise política, da qual Bolsonaro foi mais coadjuvante que o Ibis na história do futebol mundial, que permitiu que a própria vida do “grande líder” fosse o principal assunto. Foi a mesma crise que permitiu que assuntos banais como mamadeira de piroca e kit Gay fossem tidos fundamentais para a decisão de voto. Que se admitisse que um candidato que votou a favor de atividades insalubres para mulheres grávidas se recusasse a participar de um debate com desculpa de estado de saúde. Em suma, a eleição de Bolsonaro, e mesmo a utilidade de suas ferramentas alimentadas à base de Fake News e grupos de whatssap só foram possíveis por circunstâncias extraordinárias, criadas pela subversão das regras constitucionais dois anos antes, por ocasião do impeachment.

A vitória de Bolsonaro não recoloca no poder a coalização que existia antes do PT. Trás para o primeiro plano, o que antes era absolutamente secundário. A ascensão de baixo clero, de políticos sem vínculos com o capital. Sem expertise, acostumados a se elegerem arrebanhando fiéis e ódios de classe média. Seu próprio partido mais parece uma caçarola com seus elementos acusando-se uns aos outros todos deslumbrados com a nova experiência. Um governo saído dos esgotos da política, onde bestas quadradas do quilate de Olavo de Carvalho indicam ministros para combater o marxismo e para isolar o país na sua sanha de subserviência às grandes potências e fundamentalismo pentecostal.

A indicação de Joaquim Levi para o BNDS indica a tentativa de aproximação com o capital, mas a indicação de Ernesto Araújo para chanceler, Damaris para Direitos Humanos, Velasques para a educação, a repetição irracional e doentia das teorias de conspiração, o tratamento dado à imprensa, com ameaça de abate por sniper, na posse, demonstram sem espaço para dúvidas que Bolsonaro e a ala ideológica tem muita força no governo.

Arthur Bernardes foi um presidente vingativo e violento, terminou o mandato com um dos piores avaliados e mais desprezados. Jânio Quadros tinha sido governador de São Paulo, tentou fazer valer seu estilo personalista e saiu como o governo mais curto de um presidente eleito. Collor tinha apoio franqueado dos meios de comunicação e do capital, tentou bancar o congresso e foi transformado quase numa peça de decoração, enviava uma pauta para o Congresso e este votava outra que ele, contrariado, precisava executar. Depois fez um chamado patético às ruas para que o apoiassem de verde amarelo e a reposta foi: Fora!

Talvez alguém advirta que Bolsonaro tem sólido apoio popular. Ao que eu observaria que nenhum apoio é solido, nada é estático, tudo é dinâmico. Não me esqueço que menos de dois meses antes do segundo tuno Bolsonaro tinha 20% de intenção de votos, Haddad tinha 6%. Toda a maioria eleitoral do coiso foi construída em poucas semanas, com ajuda de Fake News e divulgação de delação premiada na semana final do primeiro turno pelo futuro Ministro da Justiça. E que ainda assim, na última semana do primeiro turno, Bolsonaro estava em trajetória de queda em todas as regiões e em todos os setores. E que sua vitória foi garantida pelo calendário eleitoral. Teria perdido se tivesse ido a um debate ou se campanha durasse mais uma semana.

Bolsonaro, com bom quixote, tem uma visão primitiva de poder, acha que é só mandar e pronto, mas será assim mesmo? 40% do congresso anterior não foi reeleito por votar nas pautas impopulares de Temer. Esquecerão disso os atuais deputados e vão votar sem pensar nas consequências em tudo o que vier do executivo? A mesma coalização que derrubou Dilma e ao final saiu derrotada vai se contentar em ceder o espaço que perdeu a Bolsonaro e ao PSL? A política acabou? Bolsonaro controla os partidos? Tem maioria simplesmente porque Lorenzoni diz?

Não companheiros! O rei está nu! É preciso ter a coragem de dizer. Bolsonaro não é um Titan. É tão somente um homem com maiúsculas limitações, que chegou ao poder e não sabe o que fazer com ele. Está nu, exibindo o espetáculo do seu pênis balançando a esmo e sua bunda flácida e cabeluda fazendo uma merda depois da outra.

Bolsonaro não está nem de perto à altura do que pretende ser. Será duro, será violento, será truculento, mas continuará burro e fora da realidade. Bolsonaro em seus primeiros dias já está fazendo a sua parte para diminuir o tempo de seu governo, e nós? É preciso mais do que nunca que os movimentos sociais e a sociedade civil lhe mostrem que não existimos por concessão do governo, que ainda tem muita gente que pensa aqui embaixo…

… e que a luta continua!


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