A morte de um neto de Lula e o pior da humanidade entre os adoradores de Bolsonaro.
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Nunca estive entre aqueles que se sensibilizam demasiadamente com a morte de celebridades. A morte faz parte de vida, pessoas morrem todos os dias. Mesmo a morte de crianças consta nas estatísticas, os números não são agradáveis de se ver, mas são públicos e estão ao acesso de qualquer um em vários mecanismos de pesquisa na internet.

Estou entre aqueles que entendem o julgamento e condenação de Lula como perseguição política. E também entre os que consideram esse fato gravíssimo, a despeito das várias críticas que tenho ao que foi o PT no poder. Estou entre os que se mobilizaram contra as várias traições e insuficiências de Lula e Dilma, inclusive quanto à timidez em enfrentar a bancada evangélica quando essa dizia abertamente que era homofóbica, iria continuar homofóbica e era contra qualquer ação que impedisse a diminuição da homofobia. Não é o caso de aprofundar aqui as minhas diferenças com o PT, mas é importante deixar claro de onde falo, pois não aguento mais ser chamado de petista, coisa que nunca fui. Me incomoda muito que petista tenha se tornado sinônimo para democrata, defensor dos direitos humanos, da coerência e do Estado de Direito, não é isso nem nunca foi!

Dito isso, devo deixar claro que não recebi com alegria, nem com tristeza desmedida a morte do menino Arthur, neto de Lula. A morte de crianças me incomoda profundamente enquanto fato social, assim como a doença que ceifou a vida do menino. Não posso me esquecer enquanto professor de história que o governo Geisel foi contra dar um alerta de surto de meningite porque supostamente poderia afetar a “imagem do Brasil” e mudou de ideia quando os casos chegaram à zona sul do Rio de Janeiro.

A morte do Menino Arthur é fato tão lamentável quanto à morte de qualquer criança. As implicâncias com a ida de Lula ao Velório e enterro são outro problema, e nos remete à perseguição política. A legislação existente permite a qualquer detento do sistema prisional o comparecimento ao sepultamento de parentes próximos (se Eduardo Bolsonaro não sabe disso e demonstra que seu conhecimento é tão curto quanto outras partes nada relevantes de sua personalidade, é coisa que seus eleitores e namoradas deveriam se preocupar). Mas neste ponto está o primeiro e “menor” problema: quando um detento passa a ter menos direito que qualquer outro detento no país, e tem sua igualdade jurídica, alicerce da cidadania e assegurada em clausula pétrea na constituição, violada. Felizmente dessa vez seus direitos foram respeitados, diferentemente do que ocorreu mui recentemente quando do falecimento de um irmão seu, dessa vez Lula pôde chorar junto a seus familiares sua tragédia pessoal.

Creio ter demonstrado até aqui minha preocupação com os fatos expostos enquanto processos coletivos, tentando na medida do possível evitar julgamentos de valor. Meu posicionamento em favor de que Lula possa sepultar seu neto é a defesa de que seja assegurado a cada um, independentemente de quem seja, o que é assegurado a todos.  Minha defesa da liberdade de Lula está em sintonia com minha defesa da democracia e do estado de direito. Minha tristeza com a morte de Arthur não tem nada de pessoal, é a tristeza com ida de mais uma criança deste mundo onde todos entram chorando e ninguém sai rindo.

Não conheço a família de Lula e acredito que a maioria das pessoas também não saiba o nome de praticamente nenhum irmão, filho ou qualquer parente próximo. Gostaria imensamente de não saber da existência dos parentes de Bolsonaro, mas infelizmente isso não me está sendo permitido, tamanho o esforço que eles fazem a todo o momento para aparecer. Já disse que não estou entre os admiradores incondicionais de Lula, mas como ser humano sinto-me bem mais tentado a lhe ser solidário por estar preso injustamente e por ter perdido em datas tão próximas uma esposa, um irmão e agora um neto, que com a família de Bolsonaro que, até onde sei não perdeu ninguém e são aplaudidos o tempo todo por desejar a morte dos outros.

Esse me parece ser o “maior” problema, um problema de nosso tempo histórico e de difícil solução. Vivemos o tempo do ódio, e da ode à violência. Médicos que fazem piadas racistas contra a negritude dos seus colegas cubanos e piadas em cima da morte da esposa de Lula, que deveria ser cuidada como todo ser humano deve ser. Caçarolas de bolsomínios fazendo piadas da morte do Irmão de Lula, e agora também de forma assustadora da morte de seu neto.

Curiosamente são os mesmos que aplaudem abertamente o genocídio da juventude negra nas periferias das grandes cidades. Fazem pouco da violência contra as mulheres, debocham do termo feminicídio e fazem até piada do assassinato de Marielle,  mas cerram fileiras contra o aborto espantosamente em defesa da “vida”. Uma fração que quero acreditar minoritária na população parece querer constituir uma espécie de “torcida” pela destruição física do que lhe é diferente e não entende. Algo está em processo no Brasil, onde a suposta incompreensão do que se passa em nosso momento histórico enseja também o estímulo a que se exponha abertamente o que há de pior em nós.

Falando sobre o que tornou possível o nazismo, o filósofo Theodor Adorno em seu artigo “Educação após Auschwitz”, fala dos desafios de uma educação capaz de promover os valores da tolerância e da humanidade, e da necessidade de combatermos com todas as nossas forças as engrenagens sociais formativas de pessoas “incapazes de amar”. Não por acaso, esse autor está entre aqueles proscritos pelo movimento escola sem partido, entre os que potencialmente podem ameaçar as convicções familiares dos alunos.

Não seremos capazes de produzir uma civilização que mereça esse nome se não formos capazes de nos solidarizar com Lula e todos os que como ele viverem dores e perdas semelhantes. Que tudo o que ainda há de humano em nós seja nesse momento mais forte que a tentação fácil de desejar a todos que fazem piada da morte de Arthur tanto mal quanto eles expressam, pois essa seria a maior vitória para eles, que nos tornássemos iguais a eles.


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