A FACADA NO MITO: ATENTADO OU FAKE NEWS?
Compartilhe nas redes sociais
  •  
  •  
  •  
  •  

Breves considerações sobre o documentário que está viralizando na rede sobre a possível farsa do atentado em Juiz de Fora.

Breve Video sobre a imagem em:
https://www.youtube.com/watch?v=HJkTefJmHbw

Em primeiro lugar devo dizer que sempre fui avesso a teorias da conspiração, em minha modesta opinião pessoal essas espécies de fofocas jornalísticas (isso quando jornalísticas são) não passam de versões mais elaboradas de fake News (suas irmãs gêmeas) escondendo sob um viés de racionalidades subjetivas enormes deturpações. E precisamente por essa convicção pessoal, resisti em muito a assistir ao documentário “A facada no Mito”[1]. Fui sempre uma voz insistente no sentido de que houve sim um atentando contra o então presidente Jair Bolsonaro. Que esse atentado favoreceu decisivamente sua vitória eleitoral. Nunca dei crédito aos memes e versões que tentavam estabelecer a tese de auto-atentado. Minha posição, sempre foi de que esse tipo de acontecimento está na esfera do imponderável e do incontrolável, no marco das ações individuais absolutamente imprevisíveis e improgramáveis que geram desdobramentos que o autor não pesava no momento de sua ação.

Fatos assim acontecem a todo o momento, destruindo ou alterando drasticamente planejamentos minuciosos, mas que invariavelmente e precisamente porque é impossível prever e manobrar todas as variáveis de uma operação, esses acontecimentos como regra não são eles próprios planejados e qualquer tentativa de imprimir-lhes coordenação e racionalidade excessiva só pode ser feita distorcendo fatos e falseando narrativas. Aliás, ações individuais precipitadas ou não, sempre fizeram parte da política de alguma forma. A história do Brasil é cheia de quarteladas, tentativas frustradas (outras nem tanto) de golpe, e repentinas decisões individuais. A República, se estudada em seus bastidores vai revelar muito de improviso nos seus momentos decisivos. Prudente de Moraes foi vítima de um atentado frustrado pelo soldado Marcellino Bispo de Miranda e as suspeitas de complô recaíram sobre seu vice (não foi Temer o primeiro vice traíra). Hermes da Fonseca se tornou forte candidato à Presidência da República depois de reprimir com sucesso uma insurreição oportunista contra Rodrigues Alves que ocorria juntamente à Revolta da Vacina na escola Militar de Realengo, onde era diretor. O suicídio de Getúlio, a renúncia de Jânio Quadros, a decisão de Goulart em não reagir em 1964, a versão divulgada para os meios de comunicação segundo a qual Tancredo Neves estava bem e ia tomar posse como presidente quando na verdade estava em estado quase terminal por ocasião da passagem de poder do último general ao primeiro civil, foram todas decisões tomadas no calor da hora, sem tempo para reflexões aprofundadas e que para o bem ou para o mal determinaram tudo o que lhes seguiu.

Assim também a facada em Bolsonaro, um ato violento perpetrado por um indivíduo mentalmente desequilibrado contra aquele que mais pregava a violência era perfeitamente factível para mim. Tudo se encaixava lamentavelmente, mas previsivelmente, as bravatas da coordenação de campanha do Coiso em tentar jogar as desconfianças nos partidos de esquerda. Os Bonus eleitorais pela via do aumento da simpatia e a tática de vitimização, o espaço no horário nobre da televisão assegurado com destaque para um candidato que não tinha dez segundos de horário eleitoral, o sequestro da pauta do debate eleitora, que cada dia mais falava na pessoa do Bolsonaro ao invés de suas propostas inexistentes, as inúmeras fake news e como não lembrar também da oportunidade em utilizar o estado de saúde como desculpa para não participar dos debates. Tudo isso foi abordado no vídeo, mas nada disso constitui prova para nada.

Pois bem, foi com essa má vontade, que assisti ao documentário. Notei também que o mesmo foi feito com recursos limitados, amadores mesmo, a mão de qualquer um com disposição de executar o trabalho. Todas as imagens usadas são de domínio público e podem ser encontradas com facilidade na internet. Assim como a própria edição do vídeo pode ser executada toda ela com programas gratuitos. Essas observações poderiam ser argumentos para questionar sua validade, afinal, que pretensão é esta desse documentarista em querer com materiais tão simplórios desmontar a versão da Polícia Federal que fez a investigação com recursos de ponta? De outro lado, esses mesmos argumentos também podem sublinhar a importância do vídeo, pois não é de se ignorar que um vídeo tão simples possa jogar dúvidas razoáveis numa versão tão cuidadosamente construída, resultado de meses de investigações.

O vídeo tem problemas de fato e proposições simplificadoras que realmente não ajudam. Logo de início, ao falar sobre os precedentes de armações históricas, cita o falso atentado contra Lacerda em 1954, o falso atentado no Riocentro, em 1981 e o falso sequestro do empresário Abílio Dinis, em 1989. O grande problema é que Lacerda realmente sofreu um atentado em 1954 e o chefe da segurança de Vargas (o infame Gregório) realmente foi ligado ao crime, assim como Abílio Dinis realmente foi sequestrado em 1989. Os dois eventos foram capitalizados com oportunismo. Pela oposição a Vargas para tentar derrubá-lo do poder e pela campanha de Collor (que também adorava fake News, embora na época se chamasse a isto de “notícias falsas”), que atribuiu o sequestro ao PT, no que contou com a ajuda da polícia que obrigou aos sequestradores vestirem a camisa de Lula presidente. No primeiro caso, o suicídio de Vargas levando ao ralo o projeto de golpe de Estado foi o desdobramento mais radical e duradouro. No segundo, a contribuição para a vitória apertada do aventureiro da vez foi o objetivo alcançado. Estabelecer isso é uma coisa, dizer que os eventos foram falsos é um erro de fato que não ajuda em nada para um documentário sobre tema tão relevante e atual.

O atentado no Riocentro, por outro lado, foi realmente uma tentativa de alguns setores do exército (a “Linha Dura”, de onde vêm Bolsonaro e Mourão), insatisfeitos com a transição à democracia de fachada que estamos prestes a ver ruir, em simular um falso atentado e jogar a culpa na esquerda. Mal executado, uma das bombas explodiu prematuramente matando o Sargento Guilherme Pereira do Rosário e ferindo gravemente o capitão Wilson Dias Machado. O caso foi abafado e jogado para baixo do tapete, mas hoje não restam dúvidas sobre o que de fato aconteceu. Não teria sido a primeira tentativa de setores ligados à “Linha Dura” em executar atos terroristas para intimidar a população e perpetuar seu poder. O então capitão da Aeronautica Sergio Ribeiro Miranda de Carvalho, denunciou o então brigadeiro em 1968 João Burnier de propô-lo uma sequência de atos terroristas que iam desde lançar bombas sobre as manifestações estudantis, ataques de baixo potencial ao consulado americano, até a explosão da represa de Ribeirão das Lages, visando a deixar a cidade do Rio às escuras e executar uma operação de eliminação de cerca de quarenta personalidades civis e militares tidas então como inimigas da ditadura. Estavam na lista nomes como Mourão Filho, Juscelino Kubitscheck, Carlos Lacerda, Wladmir Palmeiras, Jânio Quadros, D. Elder Câmara, entre outros. Sergio não topou, expulso, ameaçado e perseguido pela ditadura (razão do seu codinome Capitão Macaco, por suas fugas espetaculares), o caso só veio a ganhar repercussão depois da redemocratização e foi perdoado pela Lei da Anistia. Depois da redemocratização, o próprio Bolsonaro estava disposto a plantar bombas nos banheiros da vila militar para protestar contra os baixos soldos. Essa ameaça terrorista pirracenta e infantil foi inclusive o motivo para sua precoce reforma, como meio de evitar uma expulsão. Penso que o documentário poderia ter explorado precedentes como esses ao invés de cometer pequenas falhas históricas. Pontuo essas críticas para deixar bem claro que considero o documentário fraco e raso sob muitos aspectos, mas minhas críticas param por aqui.

O documentário, com todas as suas limitações e trabalhando com imagens de péssima qualidade consegue identificar uma série de personagens ao redor de Adélio Bispo de Oliveira. Consegue identificar seguranças de Bolsonaro, que inclusive aparecem ao lado do candidato em outras fotos distantes do momento do atentado. Ora, é perfeitamente natural que Bolsonaro tivesse seus seguranças pessoais ao andar em público, até aí nada demais. O documentário começa a despertar sérias dúvidas no momento que mostra a primeira tentativa de Adélio se aproximar de Bolsonaro. O diálogo gestual entre o capitão e um indivíduo da multidão que começa a fazer uma contagem regressiva com a mão. O momento em que Adélio saca o objeto que parece ser a faca e tenta se aproximar do candidato. O documentário mostra sem espaço para dúvidas que Adélio saca a arma rodeado pelos seguranças de Bolsonaro. Chega a se apoiar em um deles lhe derrubando o boné, os dois trocam palavras e se olham nos olhos após a aproximação de Adélio ser frustrada pela multidão.

Uma mulher pára em frente ao candidato, chega a apertar sua mão e travar uma breve conversa gestual, logo depois se aproxima do grupo ao redor de Adélio e parece pegar um objeto e colocar em sua bolsa. Depois o momento do atentado, troca de gestos entre Bolsonaro e um integrante do grupo que circulava Adélio. A forma como os seguranças se posicionam aparentando facilitar a aproximação do agressor. Enfim o ataque, e Adélio é contido e protegido da multidão precisamente pelos mesmos que estavam ao seu redor por todo o tempo. Detalhes técnicos intrigantes: por que a aqueles que contém Adélio não parecem se preocupar com a própria segurança e contém a multidão e nem se preocupam com um homem armado de uma faca que em tese poderia os ferir? Como a faca desaparece e só é encontrada tempos depois (não se sabe por quem, a vários metros do atentado? Poderia a faca passar por centenas de pessoas sem ser percebida? Por que a camisa que Bolsonaro utilizava desapareceu, sendo prova tão importante e tendo ele chegado com ela ao hospital? Por que um reporte que estava cobrindo o evento foi descolocado do ponto onde estava por um agente da Polícia Federal, por que foi distraído da foto que ia tirar exatamente no momento em que atentado aconteceu? E por que logo depois do atentado esse mesmo repórter foi afastado mais de cem metros do local por outro agente que lhe disse: “aqui não pode fotografar, aqui é federal”? Tudo isso foi demonstrado pelas imagens do documentário.

O documentarista também analisa notícias de meses anteriores a campanha que falam explicitamente de um problema de estômago de Bolsonaro. E levanta novamente questões pertinentes. Coincidência ou não o primeiro compromisso de campanha de Bolsonaro em Juiz de Fora foi num hospital de câncer, no qual o acesso da imprensa foi dificultado.

Novamente me colocando como avesso a teorias da conspiração, sinto me obrigado a dizer que o documentário me fez sentir dúvidas. Recomendo enfaticamente que seja visto e avaliado por todos, e com uma pontinha de tristeza, não me surpreendo que o mesmo Ministério Público Federal e a mesma Polícia Federal, que nada disseram até agora sobre o caso do motorista Queiroz, nada sobre o depósito na conta de Michele Bolsonaro, nada sobre os funcionários fantasmas de Flavio Bolsonaro, também não tenham falado nada sobre as questões que o documentário levanta, o que só faz a dúvida aumentar.

As dúvidas levantadas são muito pertinentes. Mais ainda quando o presidente eleito (ou presidente de fato, a depender da data em que esse texto é lido) e seu vice, falam abertamente em teorias conspiratórias, em supostas ameaças terroristas, de assassinato do presidente e não apenas dele. Lembrai-vos do capitão Macaco e da proposta que ele recusou, Lembrai-vos do atentado do Riocentro, lembrai-vos que o próprio Bolsonaro foi reformado às pressas para escapar de uma sentença de terrorismo, lembrai-vos que seu vice já falou em auto-golpe, em constituição por plebiscito, que seu filho já falou em fechar o STF por um cabo e um soldado entre tantas outras bravatas.

Dia 1º de janeiro de 2019, é o primeiro dia de uma luta diária em defesa das liberdades democráticas mais básicas, dos direitos liberais mais fundamentais. Achávamos que tudo estava consolidado, que retrocessos eram possíveis, mas jamais tão grandes. Hoje sabemos que subestimamos nossos inimigos. Um golpe de Estado foi perpetrado com cumplicidade do judiciário e dos meios de comunicação. Talvez quisessem recolocar no poder a coalização anterior, mas como nem tudo se controla, ganhou a eleição um outsider à base de fake News no mínimo hilárias, tais como kit gay e mamadeira com bico de pênis. O judiciário não vai investigar nada, e se milhões de pessoas acreditaram em mentiras tão primárias, acusações de terrorismo contra a esquerda podem parecer notícias bem mais verossímeis.

Os movimentos sociais precisam disputar a narrativa, precisamos exigir nas ruas e em todos os espaços a devida apuração de todas as suspeitas. O governo Bolsonaro será a hora da verdade: ou o acerto de contas final com as forças do atraso, ou o momento de nossas maiores e mais trágicas derrotas.

Que todos nós estejamos a altura da história nessa batalha que está a começar.


[1] Disponível in: https://www.youtube.com/watch?v=8hv1D6EgWfc&t=7s, ultimo acesso em 31/12/2018.


Compartilhe nas redes sociais
  •  
  •  
  •  
  •  

Leave a Reply

Your email address will not be published.