Ele deve saber do que está falando

Ele deve saber do que está falando

Oxiúro é um verdadeiro assombro semântico. Único na literatura tabeliônica, é um caso estranho, embora não seja raro. Inúmeras pessoas foram registradas por um pai “indignado com a vida” ou simplesmente “orgulhoso da própria criatividade”. Hoje em dia, é mais difícil se ter o consentimento do cartório “para essas coisas”. Na ocasião, seu pai disse que “vislumbrava um futuro atraente para o filho”. Estava se “coçando para ver o seu sucesso”. “Imaginava-o com um aroma especial”. A falta de generosidade é capaz de surpreender até o mais cético dos descrentes na humanidade. Cresceu amargo. Um dia foi nomeado funcionário público....

Estado é para quem precisa

Estado é para quem precisa

No fantástico mundo dos umbigos autocentrados, todo indivíduo só se preocupa com suas carências, com a própria escassez. Cada um se volta para o que lhe falta. Todos aceitam como necessidade universal legitimar como mérito pessoal o que poucos têm. Mas na verdade, se é direito, é porque é para todos. Se apenas alguns têm, não é direito, mas privilégio. Quando todos reconhecem isso e reivindicam como bem comum tudo aquilo que compartilham, o que se produz deixa de ser de poucos e passa a ser de todos. Minotauro precisa do poder público. Ele é contra o Estado, mas fala que o...

Tem que entregar pra quem entende

Tem que entregar pra quem entende

Monocarpo é um sujeito unidimensional. É como um ponto que indica o fim de algo que parece que ainda não começou. Ele se acha o vento que anuncia a primavera. Acredita ser singular, embora prolifere cópias suas nas redes virtuais antissociais. É formado por uma universidade federal. Nunca pagou mensalidade. Seus pais gastaram toda poupança familiar em colégios privados. Monocarpo merecia estudar de graça. Era um direito adquirido. Ele frequentou boas escolas. Direito é para quem merece. Pensa que é o seu caso. Já está formado. Aprendeu a raciocinar com serenidade e lucidez. Reflete o seu umbigo, ofuscando os próprios privilégios: sempre invisíveis para ele. Hoje, pensa diferente. Faculdade é...

O herói é coadjuvante

O herói é coadjuvante

Filho parece substantivo comum, mas é nome próprio: vem logo após o último sobrenome; tão importante quanto os que o antecedem. É herança de família, que parece natural, mas no fundo é mais uma convenção social disfarçada de capricho da natureza. Como todo mundo é filho de alguém, ele seria mais um se não fosse quem o nomeia. Os donos do sobrenome também eram proprietários de uma grande organização: ora apresentada como empresarial, ora lembrada como familiar. Esta corporação é do ramo da comunicação, mas seus negócios são diversificados. Empreendedor de sucesso investe em várias frentes, mas não atira a...

Política, palavra satânica

Política, palavra satânica

Poliana é mais uma ilha de virtudes no oceano da corrupção. Felizmente para todas essas ilhas, a distância que as separa é muito grande. Um potencial arquipélago perturbaria a singularidade e a pureza moral de cada um destes paraísos. A simples convivência entre seres tão virtuosos macularia a todos. O isolamento apenas reforça a autoimagem honrada do núcleo e a projeção esculhambada do entorno. Ela diz que já se identificou com a direita e com a esquerda. Mas que nada disso tem importância hoje. Ela nunca ligou nem para eficiência empresarial ou laços tradicionais, nem para igualdade coletiva ou justiça social. Ela sempre se preocupou somente com a pureza...

Porque as taxas de juros estão negativas ?

by Claudio Gurgel e Laura Abrantes Os bancos centrais de países desenvolvidos, como Japão, Suécia e Dinamarca, estão oferecendo os seus títulos a taxas de juros negativas, -0,1, -0,25, -0,75% respectivamente, ou zeradas, como é o caso da maioria dos países europeus(https://pt.tradingeconomics.com/country-list/interest-rate). Quando isto não acontece, o mínimo que tem ocorrido é a queda dos juros básicos, como recentemente se deu nos EUA e Brasil. Significa dizer que se você investir em título público alemão ele não lhe pagará nada e se for um título japonês você a cada ano perderá 0,1% do que “investiu”. Os bancos continuam a cobrar...

No pântano do ressentimento

No pântano do ressentimento

Wilson acredita ter uma vida injusta, que não é verdadeiramente reconhecido, que não tem seu esforço e dedicação valorizados. Vive o conflito de merecer, mas ser constantemente desmerecido. Ele vegeta no pântano do ressentimento. Jaz à sombra dos incompetentes. Dói em Wilson o sucesso do fracassado que o passou pra trás, atropelando sua pureza moral. Magoa-o profundamente o descaso com que é tratado por todos à sua volta. Ele vive o desinteresse do outro, que não enxerga sua virtude. Ele sempre se esforça para ser o melhor. Wilson cumpre com seu dever. Faz jus ao reconhecimento de seu valor. Ele enaltece a ordem social estabelecida e as posições de autoridade. Tem orgulho de compor a parte obediente e dedicada da sociedade…...

Sócio não é família

Sócio não é família

Enzo é um megainvestidor. Tem um enorme senso de oportunidade. Investe em grandes negócios. Sua família é proprietária de volumosos recursos financeiros. Seus investimentos são diversificados. Seu capital está aplicado em vários empreendimentos e ele não investe sozinho. Os negócios nunca foram exclusivamente seus ou de sua família. O capital é aberto. Sua participação é majoritária em algumas transações e, minoritária em outras. O importante, para ele, é que os empreendimentos possam fluir… em todos os continentes, a todo momento e associados a inúmeros parceiros. Suas decisões financeiras não têm prévias restrições étnicas, religiosas, geográficas, culturais. Sócio não é família. Mas é coisa séria....

Tudo se encaixa

Tudo se encaixa

Júlio é empacotador. Organiza e divide tudo em caixas: grandes, pequenas, de todos os tamanhos. Ele organiza a vida: as atividades, os compromissos, as relações, as emoções, as aflições. Tudo se encaixa perfeitamente em suas caixas. Não é de hoje. Arraigou-se em Júlio o hábito de ver o mundo ajustado em seus diversos compartimentos. Reconhece que tudo sempre encaixa bonitinho. Tudo sempre cabe em suas caixas. Nada fica de fora. Júlio é um competente organizador. Encaixotada, cada coisa parece particular e tem o seu lugar. Mas são muitas. E Júlio não quer perder a visão de conjunto. Os encaixes frequentemente estão em conformidade com o...

Pra não dizer que não falei das flores

Pra não dizer que não falei das flores

Rita está catadora. Levanta cedo. O dia vai nascer. Ao longo da vida, ela já se dedicou a muitas atividades. Fez várias coisas. Esteve em tantas outras. Não escolheu nenhuma delas. Aconteceram. Cada dia é um novo desafio. A viva a levou a fazer um pouco de tudo, de todas as coisas. Não as desejou. Não foram sonhadas. Tornaram-se parte de sua vida. Todo dia parece que ela faz tudo sempre igual. Sua filha brinca com uma boneca de pano enquanto Rita vasculha o conteúdo de sacos e caçambas. Nem sempre existiram tantas Ritas e suas filhas pelas ruas. Hoje são muitas. Amanhã será...

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