Crise e oportunidade

A revista Exame, em sua versão digital de 4 de setembro, reportando a possível flexibilização do teto de gastos, diz que o ministro Guedes e o deputado Rodrigo Maia são contra. Nas palavras de Maia, que Guedes acompanha, com declarações semelhantes em outros espaços, “temos 14% do PIB em previdência, 13% do PIB em funcionalismo e 6% do PIB em juros. Ou seja, 33% do PIB está comprometido, nós temos que reduzir essas despesas. É por isso que tem que manter o teto, impossível mexer, vamos resolver esse problema, o governo encaminha reforma administrativa para ter um estado que custe...

O que falta, mesmo, é segurança

O que falta, mesmo, é segurança

Maicon morava na periferia da região metropolitana. Seus pais eram de União dos Palmares, interior de Alagoas, e começaram a namorar quando trabalhavam em um condomínio da zona sul carioca. O filho tinha dezessete anos e estava acabando o Ensino Médio. Trabalhava de dia vendendo equipamentos eletrônicos no centro da cidade e estudava à noite em um colégio perto de casa. Tinha vergonha da origem de seus pais. Ele era antenado com as novidades do mercado de telecomunicação. Tinha orgulho de trabalhar com tecnologia, receber comissão e, no fim da semana, voltar para casa com mais dinheiro do que seus pais ganhavam em um mês...

Que conversa é essa?

Que conversa é essa?

José Carlos nasceu no interior e cresceu trabalhando com o pai na roça. Aos treze anos foi viver na cidade grande. Foi direto para a capital. Seu tio já morava lá a uns cinco anos. Foi na frente pra ganhar a vida. Tinha muito conflito naquelas bandas onde moravam. Seu pai morreu numa emboscada armada pelos capangas de um fazendeiro poderoso da região. Coisa de gente grande: uma briga por um pedaço de terra junto à casa em que o avô dele nasceu. Seu pai estava ligado ao sindicato rural e o sinhozinho de lá disse pra ele largar de mão esse negócio de política. Seu irmão estava com ele voltando...

O outro não pode ser diferente de mim

O outro não pode ser diferente de mim

Tânia precisa ser aceita. Não pode ser esquecida. Necessita da confirmação de que está no caminho certo, de que é como os outros. Neste momento ela se sente anestesiada. Seu torpor vem de uma sensação que parece ultrapassar a experiência imediata. Sua angústia diminuiu. O que era dor se transformou em realização. Tânia não está abandonada. Nesta busca, ela não está sozinha. Como ela, são centenas em pé, com a cabeça erguida e as mãos voltadas para o céu. O contato é direto, mas não conjunto. Cada um se realiza isoladamente. Todos se sentem tocados porque são especiais, mesmo que...

Para aliviar a tensão

Para aliviar a tensão

César é sensível. Age sob forte emoção… várias vezes antes de pensar. O que que cê tá falando, ô babaca? Mas, no fundo, “ele é um doce”. Sua mãe acha “fofo” seu “jeitinho carinhoso”. O “pimpolho é espontâneo: não dissimula”. Ele não gosta desta conversa de mãe e também não está aqui pra agradar. Não veio a passeio, ou a trabalho… mas pra brigar. Nunca se rende. Está sempre a postos. Vai encarar, cagão? Ele resolve no braço. Realmente convence. Convence que é uma criatura que leva jeito para se relacionar com os outros… com outros como ele: resolvidos. César está resolvido a consertar a merda...

Minha bandeira jamais será vermelha!

Minha bandeira jamais será vermelha!

Policarpo nascera na capital de Santa Catarina. Reconhecia-se culto: dominava o vernáculo lusitano, mas nunca demonstrou interesse em saber a origem do nome de sua cidade natal. Dizia que era contra o autoritarismo, que defendia a liberdade… a liberdade individual, o que sempre lhe pareceu um pleonasmo redundante. Em 2015, morava em São Paulo. Trabalhava no centro financeiro da nação. Nunca ligou para política, ao menos até os últimos anos. Na internet, compartilhava tudo que recebia contra o governo. Algo tinha de ser feito. Estavam acabando com o país. Foi para a rua lutar contra a corrupção. Queimou bandeiras. Xingou...

A garotada acha que pode tudo

A garotada acha que pode tudo

Maria Inês tem medo do futuro. Para ela, a juventude está perdida. As coisas andam meio que de cabeça para baixo. A garotada acha que pode tudo, que pode ser qualquer coisa. As meninas estão se beijando no meio do corredor, na frente de todo mundo. Resolveram se abraçar e andar de mãos dadas em público. Só pode ser para afrontar os pais. Elas dizem que não querem ter filhos, que não querem ser mães, que “não serão como as suas mães”. Qual é o problema de ser mãe? Agora parece que isso diminui a mulher. Parece que ela deixa...

Porque Bolsonaro atacou Fernando Santa Cruz

Porque Bolsonaro atacou Fernando Santa Cruz

De modo aparentemente extemporâneo, sem que se encontrasse um motivo imediato e atual, Bolsonaro atacou o líder estudantil Fernando Santa Cruz, militante assassinado na ditadura, em 1974, e que hoje dá nome ao Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal Fluminense, UFF. Por extensão, feriu o filho de Fernando, Felipe Santa Cruz, presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil. Bolsonaro resgatou uma versão já desmentida por fartas provas documentais e por agentes da repressão (Cláudio Guerra, autor de Diário de uma guerra suja, e o ex-sargento do Exército Marival Chaves Dias, que serviu no DOI-Codi de São Paulo). É...

É por pouco tempo

É por pouco tempo

Sérgio tem vinte e três anos, ensino médio completo e está desempregado. Mas é por pouco tempo. Sempre estudou sem cotas. Não é de mi-mi-mi. Trabalha desde os doze. Nunca teve vínculo empregatício formal. Sonha em ser guarda municipal: emprego estável, carteira assinada, trabalho digno e bom salário. Ele tem mérito. Poucos têm. Ele é um deles. Está certo disto. Seu bairro precisa de segurança, ordem e gente honesta. Com seu trabalho, um dia Sérgio vai ajudar a vizinhança a resgatar o passado de paz, respeito e prosperidade. Sua comunidade na periferia da Baixada Fluminense é muito violenta. Sérgio acredita...

A política da estupidez, insensatez e insanidade humanas

A política da estupidez, insensatez e insanidade humanas

Trata-se de uma agenda que não só congela direitos fundamentais à vida, mas os extermina Por Gaudêncio Frigotto* Todos aqueles que entendem que o ser humano vem em primeiro lugar e não o mercado devem estar estarrecidos com o que vem ocorrendo no Brasil a partir de 2016 e, em particular, a partir de 2019. Com efeito, este estarrecimento advém do fato que a agenda política do Estado Brasileiro se afirma cada vez mais sob a tríade da estupidez, da insensatez e da insanidade humana que se manifesta no fundamentalismo econômico, político e religioso. A estupidez humana, terreno da doutrina fundamentalista do...