Tudo se encaixa

Tudo se encaixa

Júlio é empacotador. Organiza e divide tudo em caixas: grandes, pequenas, de todos os tamanhos. Ele organiza a vida: as atividades, os compromissos, as relações, as emoções, as aflições. Tudo se encaixa perfeitamente em suas caixas. Não é de hoje. Arraigou-se em Júlio o hábito de ver o mundo ajustado em seus diversos compartimentos. Reconhece que tudo sempre encaixa bonitinho. Tudo sempre cabe em suas caixas. Nada fica de fora. Júlio é um competente organizador. Encaixotada, cada coisa parece particular e tem o seu lugar. Mas são muitas. E Júlio não quer perder a visão de conjunto. Os encaixes frequentemente estão em conformidade com o...

Pra não dizer que não falei das flores

Pra não dizer que não falei das flores

Rita está catadora. Levanta cedo. O dia vai nascer. Ao longo da vida, ela já se dedicou a muitas atividades. Fez várias coisas. Esteve em tantas outras. Não escolheu nenhuma delas. Aconteceram. Cada dia é um novo desafio. A viva a levou a fazer um pouco de tudo, de todas as coisas. Não as desejou. Não foram sonhadas. Tornaram-se parte de sua vida. Todo dia parece que ela faz tudo sempre igual. Sua filha brinca com uma boneca de pano enquanto Rita vasculha o conteúdo de sacos e caçambas. Nem sempre existiram tantas Ritas e suas filhas pelas ruas. Hoje são muitas. Amanhã será...

Portugal, urgente: Vitória e derrota da Geringonça

Texto de Tuíla Lins e Lucas Pacheco Campos, de Lisboa No último domingo, 6 de outubro de 2019, ocorreram as eleições para a Assembleia da República de Portugal. Tratou-se do mais alto teste pelo qual passou a conformação governativa das esquerdas portuguesas, denominada de Geringonça e formada em 2015 logo após dissolver o governo da coligação entre o Partido Social Democrata (PSD) e o Partido do Centro Democrático Social (CDS). Para se analisar os resultados de domingo, é necessário retornar um pouco no tempo para contextualizar o que foi e o que significou a Geringonça. Da Troika à Experiência das...

SOLIDÃO: Reflexões de uma “cuidadora de idoso”

SOLIDÃO: Reflexões de uma “cuidadora de idoso”

Vi uma frase outro dia – “Não é sinal de saúde estar bem adaptada a uma sociedade doente”.Não me lembro de quem, nem se exatamente isso, mas foi assim que entendi, e me fez refletir sobre minha condição atual. Não é apenas uma reflexão sobre um idoso doente. Mas,em especial, de uma cuidadora de um idoso de esquerda, doente. Aluísio Marques, militante petista e meu companheiro, vem sofrendo sucessivos AVC. Em junho de 2018,teve um AVC isquêmico que deixou, como sequela, uma leve afasia ocasionada por uma lesão no cérebro, que afeta a capacidade de expressão e de entendimento, a...

É tudo brincadeira

É tudo brincadeira

Ridiculum ria de tudo, ria de todos, menos dele próprio. No fundo, era muito sério para ver graça além da desgraça alheia. Achava que era meio rei, meio bobo da corte. Talvez por isto não houvesse quem risse dele. No fim das contas, não entendia que fora um bobo sem corte que havia se tornado o monarca que destruiu o reino. Parece difícil de acreditar, mas “é verdade esse bilhete”. Tudo depende da chancela de quem conta. Não é o caso deste personagem narrador. Quem atestou a veracidade do bilhete foi uma autoridade inconteste da atualidade: o valente Guru das...

Guerra comercial e recessão mundial: Trump repete Hoover?

Trump festeja a decisão da OMC que dá aos EUA o direito de retaliar os europeus, aumentando os impostos sobre os produtos oriundos da União Européia. A guerra comercial com a China já está posta. Agora se amplia para a Europa. Trump tenta proteger o seu mercado, em véspera das eleições, procurando os votos para um novo mandato. Mas relembra alguns fatos passados, nada agradáveis, que se podem repetir. Hoover, os anos 1930 e a Lei Smoot-Hawley No dia 24 de outubro de 1929, a Bolsa de Valores de Nova York foi abaixo e principiou a recessão dos Estados Unidos. Debatendo-se...

A rebeldia retórica sem noção

A rebeldia retórica sem noção

Guru é uma verdadeira vestal verbal. Sua pureza de espírito e seu vasto e rigoroso conhecimento científico impressionam até mesmo as mais exigentes personalidades acadêmicas. Sempre disposto ao diálogo, não transige com a transigência. Caralho, porra! E a polêmica oral se estabelece. Filho de uma puta! Substantivo, adjetivo, interjeição ou apenas uma gentileza espontânea: uma espécie de vírgula idiossincrática? A disputa é acalorada. Tu é burro pra caralho! Muitos neófitos interpretam o grunhido como uma espécie de assinatura pessoal. Ora, porra! Não chega a ser propriamente uma palavra. Vai se foder! De fato, não possui intenção semântica. Combustível fóssil é o cu da sua mãe! Não pode ser traduzido como uma ofensa. Porra! É quase um...

Fragmentos da eternidade

Fragmentos da eternidade

Toda Poderosa é uma personagem especial: Ela é a Criadora-de-todas-as-coisas. O que certamente não é pouco. Qualquer pequeno detalhe poderia ser descrito como “um dia em Sua vida”, mas isto não faria muito sentido. Fragmento da eternidade parece se adequar mais a esta Grande figura. Diferente de quem lê ou escreve, Ela é antes de tudo um Ser bem-humorado, que lamenta muito o uso limitadamente moralista do tal livre-arbítrio. Se era para ficar perturbando a vida alheia, Eu preferia não ter criado esse bando de frustradas. Se era para aporrinhar as outras, Eu mesmo ficaria apontando as falhas dessas criaturas tão soberbas. E...

Crise e oportunidade

A revista Exame, em sua versão digital de 4 de setembro, reportando a possível flexibilização do teto de gastos, diz que o ministro Guedes e o deputado Rodrigo Maia são contra. Nas palavras de Maia, que Guedes acompanha, com declarações semelhantes em outros espaços, “temos 14% do PIB em previdência, 13% do PIB em funcionalismo e 6% do PIB em juros. Ou seja, 33% do PIB está comprometido, nós temos que reduzir essas despesas. É por isso que tem que manter o teto, impossível mexer, vamos resolver esse problema, o governo encaminha reforma administrativa para ter um estado que custe...

O que falta, mesmo, é segurança

O que falta, mesmo, é segurança

Maicon morava na periferia da região metropolitana. Seus pais eram de União dos Palmares, interior de Alagoas, e começaram a namorar quando trabalhavam em um condomínio da zona sul carioca. O filho tinha dezessete anos e estava acabando o Ensino Médio. Trabalhava de dia vendendo equipamentos eletrônicos no centro da cidade e estudava à noite em um colégio perto de casa. Tinha vergonha da origem de seus pais. Ele era antenado com as novidades do mercado de telecomunicação. Tinha orgulho de trabalhar com tecnologia, receber comissão e, no fim da semana, voltar para casa com mais dinheiro do que seus pais ganhavam em um mês...

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